Íntegra do discurso de Marco Aurélio Garcia na abertura da reunião do DN, em 25/11/2006.

Íntegra do discurso de Marco Aurélio Garcia na abertura da reunião do DN, em 25/11/2006

“Esta é uma reunião de celebração.

Nosso Diretório Nacional se reúne por primeira vez depois de 29 de outubro para celebrar o grande triunfo do povo brasileiro, que reconduziu à Presidência da República nosso companheiro Luiz Inácio Lula da Silva.

Momento de celebração, mas também de reflexão.

Hora de refletirmos sobre os desafios que temos pela frente para levar adiante o grande projeto de transformação econômica, social e política iniciado quatro anos atrás e que recebeu agora a adesão de mais de 58 milhões de brasileiras e brasileiros.

Este também é o momento de saudar as grandes vitórias que tivemos em vários estados da Federação. O nosso abraço caloroso a Ana Júlia, governadora eleita do Pará, ao Wellington, reeleito para o Governo do Piauí, ao Deda, vencedor da eleição no Sergipe, ao Jacques, carrasco do oligarca baiano, ao Binho, que iniciará o terceiro governo petista consecutivo no Acre, mas também ao Pinheiro, novo vice-governador do Ceará, companheiro de chapa de Cid Gomes.

Aqui conosco estão também dezenas de deputados petistas eleitos a primeiro de outubro. Eles foram responsáveis pela maior votação que um partido recebeu para a Câmara nesta eleição. Aos que iniciam agora seus mandatos, aos que foram reeleitos, mas também àqueles que não conseguiram sua reeleição nosso reconhecimento e apreço. Esses sentimentos também queremos expressar aos Senadores petistas que aqui conosco se encontram.

Finalmente, nosso abraço aos ministros e demais companheiros de Governo que aqui se encontram.

A Comissão Executiva de nosso Partido decidiu convidar Emir Sader para essa reunião. Quisemos expressar a esse amigo e companheiro nossa solidariedade. Emir acaba de ser condenado em primeira instância – inclusive à perda de sua cátedra na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – por haver respondido com vigor à fala do senador Bornhausen, que conclamou a acabar “com a raça do PT”.

Estamos juntos aos milhares de intelectuais que protestaram contra esse ato arbitrário, que faz lembrar os velhos tempos da ditadura militar, à qual serviu com afinco e dedicação o senador pefelista.

A contribuição intelectual de Emir tem juízes bem mais doutos do que alguns trêfegos analistas. Sua integridade ética e política é por nós todos conhecida. Receba, Emir, nossa solidariedade.

Queremos fazer chegar nossa saudação, finalmente. a todos os partidos que nos acompanharam neste caminho de vitória, especialmente àqueles que conosco estiveram desde o primeiro turno.

O triunfo alcançado foi sobretudo a expressão de uma grande mobilização popular, dos movimentos sociais e todos aqueles que compreenderam muito bem o que estava em jogo nas eleições de outubro.

A vitória de Lula tem assim raízes profundas, fincadas na sociedade, sobretudo nos de baixo.

O segundo turno permitiu uma extraordinária clarificação do debate político no país, pondo em confronto dois projetos distintos e opostos de Brasil.

A nitidez de nossas propostas, contrastou com o lusco-fusco do programa adversário, onde uma retórica com laivos desenvolvimentistas não chegava a ocultar seu caráter conservador, fiscalista e privatista, em sintonia com o repudiado governo FHC.

Como afirma o projeto de Resolução apresentado para discussão neste Diretório: “Fizemos uma campanha de esquerda, sintonizada, como no passado, com nossa militância e com nossa tradição de combatividade. Reafirmamos nossa política externa, especialmente nossos objetivos de construir um continente livre, próspero e integrado”.

A campanha no segundo turno nos permitiu sermos mais enfáticos em nossos propósitos de impulsionar um forte movimento de crescimento de nossa economia, que mantenha e aprofunde os programas sociais, a expansão do emprego e da renda dos trabalhadores.

O segundo turno mostrou igualmente que é perfeitamente compatível a nitidez de um programa eleitoral com a amplitude da coligação política.

Construímos uma ampla base de partidos e facções de partidos, que ampliou-se ainda mais nos últimos dias, criando bases concretas para a constituição de um Governo de Coalizão capaz de dar mais radicalidade e conseqüência ao programa de transformações sociais iniciado em 2003.

O Governo de Coalizão não é um condomínio baseado na distribuição fisiológica de cargos. É antes um compromisso com um programa. É a possibilidade de encontrar um terreno comum para uma ação transformadora que o Brasil espera há muito e que tem adeptos em toda a sociedade, em quase todos os partidos.

O Governo de Coalizão tem de enfrentar o grande tema da abertura de um novo e prolongado ciclo de desenvolvimento econômico, capaz de combinar o crescimento acelerado, emprego e distribuição de renda com o controle da inflação e a redução da vulnerabilidade externa. Para que essa combinação seja alcançada é fundamental aumentar significativamente, nas esferas públicas e privadas, nossa capacidade de investir.

O Governo de Coalizão deverá aprofundar o processo de democratização do país. Para tanto, é urgente lograr consenso para uma reforma político-institucional que garanta e amplie a soberania popular, dê transparência às instituições republicanas e assegure uma maior participação do povo na vida política do país. A democratização do país exige também a democratização da comunicação.

Mal passados alguns dias da vitória de 29 de outubro, apareceram aqueles que querem confiscá-la.

Primeiro, tentando impor ao Governo a agenda econômica derrotada na eleição. Para estes, o crescimento da economia é uma quimera de “desenvolvimentistas”, fora da realidade. O pensamento único, do qual estão empapados muitos “analistas”, aconselha um conjunto de medidas que só atinge os de baixo: reforma da previdência, cortes de gastos sociais, ritmo mais lento dos aumentos do salário mínimo, reformas trabalhistas que cortarão direitos dos trabalhadores.

O segundo ardil dos que querem confiscar a vitória de outubro é decretar a necessidade de “despetizar” o Governo. Fala-se dessa despetização, quase como se tratasse de desratizar algo.

Para chegar à proposta da despetização, seus formuladores partem da tese falsa do “aparelhamento” do Governo pelo PT.

Não houve aparelhamento, nem haverá “despetização”.

O partido não se lançou, nem se lançará em uma disputa pequena por cargos. Queremos conteúdos e definições políticas claras e estamos seguros que esta é a preocupação –diria, mesmo, a obsessão maior – de nosso companheiro presidente.

A natureza de um governo não se mede pela repartição de cargos entre os partidos, mas por seu programa e pela capacidade de executá-lo.

O PT tem quadros para conduzir qualquer esfera do governo, mas quer compartilhar responsabilidades com outros partidos.

Analisando a experiência dos últimos anos, penso que é fundamental dar um novo e consistente rumo às relações entre o PT e o seu Governo.

Primeiro, temos de mobilizar a sociedade para fortalecer o Governo e sua capacidade de cumprir seu programa.

Segundo, temos de fazer chegar a nosso Governo o fruto de nossas reflexões sobre os grandes temas econômicos, sociais, políticos e culturais.

O partido tem de compreender que estamos vivendo um novo período histórico em nosso país e que é preciso entendê-lo e tirar todas as conseqüências práticas desse entendimento.

Não podemos ser como este personagem de Sthendal – Fabrizzio Del Dongo – que participa da batalha de Waterloo sem perceber que estava no meio de um acontecimento que mudaria a face do mundo.

Debater, expressar opiniões, nos permitirá iluminar melhor o que está em jogo em uma realidade nacional e mundial que somos chamados a modificar.

O debate de idéias não pode ser entendido, assim, como “fogo amigo”.

Por essa razão convocamos nossos economistas para contribuir com suas idéias para o desencadeamento de um novo ciclo de crescimento. Por essa razão debateremos com nossos governadores, alternativas para enfrentar os graves problemas que afetam a federação e nosso projeto de desenvolvimento nacional.

Ao debatermos temas candentes de nossa atualidade econômica, social e política devemos sempre ter em mente a necessidade de um olhar estratégico sobre o futuro de nosso país e do Continente. Insisto: há que pensar a novidade do período aberto com a eleição de Lula – e agora com sua reeleição – e tirar todas`as conseqüências do enorme potencial de transformações que este período histórico nos apresenta.

Esta reflexão de sentido estratégico queremos fazê-la com outras forças de esquerda. Por essa razão queremos convidar o Partido Socialista do Brasil e o PCdoB para iniciar um debate tendente a construir instrumentos de ação conjunta.

A euforia da vitória e as extraordinárias perspectivas que se abrem para o país não devem fazer com que subestimemos o peso da reação conservadora.

Há setores que não suportam as mudanças sociais em curso. Não admitem a perda de posições em um Governo que consideravam seu pela eternidade.

Mesmo dentre aqueles que possam ser favorecidos por medidas deste Governo – e não são poucos – perpassa um sentimento de classe, de intolerância em relação a um governo chefiado por um trabalhador, aberto aos movimentos sociais e a suas demandas.

É isso que explica a ofensiva permanente que realizam em todas as esferas da sociedade contra o Governo e, especialmente contra o PT.

Muitos desses críticos, que se consideravam formadores da opinião pública, pautando o que consideravam ser a agenda do país, perderam essa condição.

A opinião pública se constitui contra ou à margem de suas opiniões e de seus instrumentos de difusão.

Alguns consideram-se acima de qualquer crítica e, quando convidados a uma reflexão sobre seu descolamento em relação ao Brasil real, respondem com arrogância e autoritarismo tentando colocar-nos como inimigos da livre expressão do pensamento.

Não necessitamos de lições a esse respeito. Este partido forjou-se na defesa da liberdade de expressão, tem a democracia em seu DNA e não transigirá a esse respeito, mesmo que submetido – como tem sido – a fortes pressões de seus adversários.

Mas devemos, nós também, fazer uma profunda reflexão sobre nosso partido.

Sobre as dificuldades de empreender uma renovação de nosso pensamento político e de nossas práticas.

Mas, sobretudo, sobre nossas crises.

Quantos construtores de nosso partido e de nossas vitórias não estão aqui conosco hoje.

Não vamos tirá-los de nossa história, como no passado, os socialistas autoritários fizeram com militantes e dirigentes, eliminados até mesmo da iconografia histórica, por meio de grosseiras falsificações fotográficas.

Temos, no entanto, de analisar nossa história, não para mesquinhos e sectários ajustes internos, mas para entender o que conosco passou e corrigir nossos erros.

Temos uma oportunidade ímpar, em 2007, com a realização de nosso Congresso. Essa será a ocasião para aprofundar nosso debate sobre as perspectivas da mudança social no Brasil em um horizonte de tempo mais amplo.

Mas essa será também a oportunidade para avançarmos na renovação de nossa cultura política.
Temos de olhar sem medo – mas com decisão de mudança – a cara feia de nosso partido, nossas pequenezes, a substituição do debate de idéias pelo conflito de interesses pessoais ou de grupos.

Esse ajuste de contas, que pode ser duro, não nos deve fazer perder o sentido da unidade partidária. Unidade que se constrói na diversidade, no debate, no confronto de posições, e que é a maior riqueza que devemos preservar.

Companheiras e companheiros,

Permitam-me que conclua minhas palavras com uma nota pessoal de agradecimento.

Ao Companheiro Presidente, a quem tenho o privilégio de servir como assessor de sua política externa. Agradeço, também, a confiança que depositou em mim convidando-me – em um momento difícil de nossa vida política – para coordenar sua campanha eleitoral.

Agradeço a meus companheiros de partido, sobretudo aos da Direção Nacional, e a todos militantes, que me ajudaram nestes dois meses a construir a vitória que logramos em outubro.

Substituo temporariamente Ricardo Berzoini, amigo e companheiro, que tem minha solidariedade.

Encerro dizendo que minha passagem pela presidência do PT aguçou minha ambição. Não a de cargos, mas aquela de contribuir para que nosso partido seja um vetor fundamental do Governo de transformações que agora foi reconduzido.

Mas igualmente aguçou a ambição de que, passados mais de 26 anos de sua Fundação, o PT possa se renovar profundamente, em sintonia com os sentimentos e esperanças que estiveram presentes quando de nossa fundação e que se reforçaram e ganharam amplitude nacional e internacional no curso de nossa história.

Que viva o povo brasileiro!”

Publicado no portal do PT em 16/11/2006