O PT foi fundado na esquina entre dois períodos históricos radicalmente distintos.

Por Emir Sader*

Os 26 anos passados desde a fundação do PT viram algumas das mais radicais transformações da história da humanidade. Se olhamos o Brasil, a América Latina e o mundo naquele momento e o olhamos agora, podemos ter idéia da dimensão das transformações – de que o PT foi agente, mas também objeto.

1979 foi um ano crucial. Depois da derrota dos EUA pela extraordinária resistência vietnamita, a que se seguiu o escândalo de Watergate e a renúncia de Richard Nixon, concomitantemente à independência das colônias portuguesas na África, em 1979 tivemos a queda do regime do xá do Irã, a vitória da revolução sandinista e da revolução em Granada. Nesse mesmo momento, o – então muito representantivo – Movimento de Países não-Alinhados elegia a Fidel Castro como seu presidente.

A relação de forças entre as forças populares e as do bloco imperialista em escala mundial – nos três continentes do Sul do mundo – mudava de forma muito favorável àquelas. No entanto se gestava, no mesmo momento, uma contra-ofensiva imperial de proporções inéditas no segundo pós-guerra. A ascensão de Reagan foi feita em nome do lema: Voltaremos a ser fortes como antes, mediante uma combinação de ofensiva militar com ofensiva liberal. Junto com Thatcher, nascia a dupla que levaria adiante a introdução do novo modelo hegemônico – o neoliberalismo. Por outro lado, a invasão soviética do Afeganistão e a guerra Iraque-Irã abrirão brechas na frente antiimperialista, que facilitarão a contra-ofensiva conservadora.

O PT foi fundado na esquina entre dois períodos históricos radicalmente distintos. Se começava a revolução sandinista, começava também o governo Reagan e a ofensiva neoliberal do bloco anglo-saxão no mundo, contando com o apoio e a ação concreta do novo Papa.

O desenvolvimento do PT nas mais de duas décadas e meia de sua existência coincide, em grande parte do período, com essa ofensiva conservadora e com a construção da hegemonia liberal e neoliberal em todos os continentes. Na América Latina, coincide com o fim das ditaduras militares no Cone Sul, sucedidas por regimes democrático-liberais.

O problema para todos nós, nesta região do mundo, é que o neoliberalismo transformou-se na ideologia desses novos regimes democráticos, levando-os rapidamente à deturpação de grande parte de seus traços e ao esgotamento do seu caráter democrático. No Brasil, a década de 80 transcorreu na contramão da nova onda – com a fundação do PT, da CUT, do MST, com a Assembléia Constituinte e a nova Constituição.

Foi nesse cenário que o PT se desenvolveu, em mais ou menos a metade da sua existência – até a campanha eleitoral de 1994. A partir do governo Collor e, de maneira mais concentrada, o neoliberalismo passou a construir também no Brasil – depois de surgido no Chile e na Bolívia, estendendo-se depois para o México, o Peru, a Argentina,

A tendência na direção da moderação que o PT foi adotando – em relação à dívida externa, ao ajuste fiscal, à reforma da Previdência, à reforma agrária, entre outros temas – está inserida nesse contexto. De instrumento de luta contra o neoliberalismo — e pelo socialismo, no seu início —, o partido se tornou um campo de luta entre tendências divergentes, não apenas na tática para conseguir os fins inicialmente enunciados, mas estrategicamente, na superação ou reprodução do modelo neoliberal.

Aos completar 26 anos, o PT vive seu maior dilema, a circunstância mais difícil da sua história. Abalado pelo enfraquecimento do seu espírito militante e pela crise de confiança que grandes setores dos movimentos sociais passaram a nutrir em relação ao partido, ao mesmo tempo que, sendo vítima de um grande isolamento social em relação a vários dos seus entornos sociais imediatos – como boa parte da classe média, os sindicatos de funcionários públicos, os formadores de opinião na grande mídia monopolista privada —, o PT encarará a mais difícil campanha da sua história de 26 anos.

Diante de uma descrença com a política – que inclui o próprio PT, pela primeira vez —, diante da possibilidade de que não seja incluído na plataforma da luta pelo segundo mandato a superação do modelo econômico neoliberal — com todas suas conseqüências nefastas sobre o desempenho do governo —, o PT tem diante de si o desafio do que fazer. Se não conseguir impor a prioridade do social — que inclui um outro modelo econômico, dado que este mantém a prioridade de metas econômico-financeiras, que engessam o crescimento econômico e, principalmente, a distribuição de renda — e a ética na política — que inclui obrigatoriamente o orçamento participativo —, não conseguirá mobilizar de novo sua militância política, não conseguirá superar o isolamento social em que o partido se encontra. E aí terminará recaindo nos erros do passado recente: marqueteiros no lugar de campanha ideológica; gente paga no lugar da militância; alianças espúrias no lugar da construção de um bloco político e social coerente.

Em suma, o PT chegará a seu próximo aniversário com esses dilemas resolvidos ou será devorado por eles. O Brasil agradece a primeira alternativa e lamenta a segunda, porque o destino do país hoje está nas mãos do PT, aos seus 26 anos.


*Emir Sader é cientista social e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Artigo publicado no portal do PT