Em São Paulo, às vésperas do Estado Novo proclamado pelo então presidente Getúlio Vargas, o casal de dramaturgos e radionovelistas Deocélia Vianna e Oduvaldo Vianna trazia à luz o rebento Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. Um lar de intelectuais e militantes comunistas que vivia sob os rescaldos da Intentona protagonizada pelo antigo PCB (Partido Comunista do Brasil), que mobilizou militares (sempre eles) na intenção de, com um putsch, derrubar o governo oriundo da Revolução de 1930. Um malogro que custou a prisão, por sete anos, do líder comunista Luiz Carlos Prestes, de seus camaradas militares e de alguns civis.

Foi nesse ambiente perpassado pela cultura, pela política e pela Segunda Guerra Mundial que transcorreu a primeira infância do jovem Oduvaldo, que, por ter o mesmo nome do pai, foi logo nominado Vianinha. Filho único de Deocélia, já que o pai teria filhos do seu casamento anterior, Vianinha, já no período da redemocratização, em 1945, aos 9 anos, acompanhava Deocélia nas atividades e tarefas que a mãe assumia como militante do PCB. Ainda na adolescência, ingressou nas fileiras da UJC (União da Juventude Comunista), militando no movimento dos estudantes secundários.

A vida familiar e a militância comunista, sem dúvida, moldaram o seu interesse pela arte e pela cultura, transformando-o em um intelectual orgânico — termo hoje muito difundido e defendido pelo intelectual e dirigente Antonio Gramsci nos Cadernos do Cárcere. Seu interesse pela arte o fez, aos 17 anos, já morando em São Paulo, ingressar na Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie. O sonho de se tornar arquiteto, porém, foi vencido, dois anos depois, pelo teatro amador. Fundou, juntamente com o também militante Gianfrancesco Guarnieri, o Teatro Paulista do Estudante e, posteriormente, inseriu-se no Teatro de Arena, em 1956. Ainda no TPE, iniciou sua carreira de ator amador, atuando na peça Rua da Igreja, um texto do irlandês Lennox Robinson.

Sem estrutura para ensaiar e encenar, o TPE solicitou as instalações do Teatro de Arena, cuja parceria se traduziu na incorporação de Vianinha e Guarnieri ao corpo do teatro. Recém-chegado dos EUA, Augusto Boal vinha da Columbia University, onde inicialmente fora estudar Engenharia Química e, concomitantemente, estudou dramaturgia na School of Dramatics da mesma universidade. O Brasil perdeu um PhD em Engenharia Química e ganhou um de seus mais brilhantes artistas.

O vínculo pecebista que unia os egressos do TPE foi determinante para a estética consolidada na montagem, em 1958, de Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, trazendo o dia a dia do operariado da industrializada São Paulo, suas agruras, seu sindicalismo e suas contradições para o palco. A estética “proletária” do Arena vinha na direção contrária ao movimento que deu origem à Bossa Nova, que, ambientada na classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro, respirava os sinais iniciais da era JK.

Sob a alegria contagiante da conquista da Copa do Mundo de 1958, na Suécia, onde pontificou a genialidade da dupla Pelé e Garrincha, Vianinha, buscando a aproximação popular por meio do futebol, escreveu e encenou sua peça Chapetuba Futebol Clube, em 1959, buscando reafirmar um teatro eminentemente popular “marxista”, iniciado por Black-Tie. Depois de trazer para a cenografia brasileira o operário, o caminho a seguir seria sua identificação com a “paixão do povo”. O futebol.

CPC DA UNE

Na virada dos anos 1950 para 1960, a experiência no TPE levou Vianinha à criação do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes. Estimulado pelo PCB, Vianinha se juntou a Carlos Estevam Martins, Ferreira Gullar, Carlos Lyra, Milton Gonçalves, Leon Hirszman, Guarnieri, entre outros, na montagem de esquetes teatrais nas ruas, nas universidades e nos bairros periféricos. A busca por um teatro, cinema e música que expressassem a temática da vida das camadas populares apontava um rompimento sistemático com as características “burguesas” operadas nas artes brasileiras até então.

Foi nesse ambiente de enfrentamento ao domínio da indústria cultural estadunidense e à crescente presença das superproduções hollywoodianas dominando os cinemas brasileiros que surgiu o Cinema Novo, cuja obra inicial foi a colagem Cinco Vezes Favela: cinco histórias diferentes sobre as favelas cariocas, dirigidas pelos estreantes Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias, Miguel Borges, Cacá Diegues e Leon Hirszman. Vianinha participou como ator, ao lado de Sadi Cabral, Waldir Onofre e Flávio Migliaccio.

Na esteira dessa efervescência artístico-cultural de múltiplas faces, surgiu a “Canção do Subdesenvolvido”, do bossanovista Carlos Lyra e do diretor e ator Chico de Assis, que se juntaram à formação do CPC.

 “…O povo brasileiro, embora, pense e dance
como americano
Não come como americano
Não bebe como americano
Vive menos, sofre mais
Isso é muito importante
Muito mais do que importante
Pois difere o brasileiro dos demais
Personalidade, personalidade
Personalidade sem igual
Porém… subdesenvolvida,
Subdesenvolvida
E essa é que é a vida nacional.”

A defesa dos interesses e dos sentimentos da nacionalidade transcendeu as paredes da UNE e culminou na construção do Comando dos Trabalhadores Intelectuais (CTI), que nasceu impulsionado pela luta pelas Reformas de Base do governo João Goulart e que, pela primeira vez na história brasileira, abria um cenário de mudanças sociais inclusivas que transcendiam as reformas aplicadas pelo trabalhismo getulista e pela democratização do governo JK. 

Vianinha, com sua inquietude, foi, sem dúvida, um dos motores dessa iniciativa, que era coordenada pelo editor Ênio Silveira, da editora Civilização Brasileira e também militante notório do PCB.

O GOLPE DE 1964: as ilusões perdidas

O golpe reacionário de 1964 pegou pela proa as iniciativas da UNE, do CTI e das demais forças progressistas. A reação raivosa da direita contra a cultura e a civilidade teve como uma de suas principais expressões a depredação e o incêndio da sede da UNE, na Praia do Flamengo, no Rio, e o ataque a tiros contra os estudantes que tentaram protegê-la. 

Outro fato significativo foi a publicação, nos primeiros dias de abril de 1964, no jornal O Globo, da lista de componentes do CTI, fundado em 1963, acusando os intelectuais subscritores de fazer parte da estratégia de “comunização” do país. Uma sordidez absoluta. Entre os fundadores figuravam, além de Ênio Silveira e Vianinha, o general Nelson Werneck Sodré, Oscar Niemeyer, Dias Gomes e Mário Lago, membros do PCB, e Barbosa Lima Sobrinho, Paulo Mendes Campos e Paulo Francis, entre outros democratas sem vinculação com o PCB. 

Quase todos os 223 nominados na lista de O Globosofreram com cassações e IPMs (os malfadados Inquéritos Policiais Militares), uma “inovação” da nascente ditadura.
O revés no mundo da cultura e da política produzido pelo golpe civil-militar de 1964, entretanto, não arrefeceu o ânimo de Oduvaldo Vianna Filho.

Já em dezembro do mesmo ano, sob a direção do diretor teatral Augusto Boal, Vianinha se juntou aos atores e dramaturgos Paulo Pontes e Armando Costa para lançar o Grupo Opinião e produzir a montagem do Show Opinião, que, na sua primeira fase, apresentou a cantora carioca Nara Leão, posteriormente substituída pela estreante cantora baiana Maria Bethânia, o sambista Zé Kéti e o artista nordestino João do Vale.

A junção artística entre as várias expressões da musicalidade já tinha sido exitosa na época do CPC. Apesar de montado em um espaço não muito grande, o espetáculo, desde a estreia, tornou-se um sucesso absoluto. A música “Opinião”, do sambista Zé Kéti, na voz de Nara Leão, funcionou como uma espécie de abre-alas do espetáculo e a primeira manifestação contra a ditadura.

“Podem me prender, podem me bater
Podem até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro eu não saio, não.”

E, quando da substituição por Bethânia, agregou-se sua sublime interpretação de “Carcará”, de João do Vale e José Cândido da Silva.

“Carcará
Lá no Sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião
Carcará quando vê roça queimada
Sai voando e cantando
Carcará”

No ano seguinte, Vianinha participa como ator na peça Liberdade, Liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, tendo a companhia de Paulo Autran e Tereza Rachel.

Estruturado como empresa a partir de 1966 e contando agora com Ferreira Gullar, Teresa Aragão, Paulo Pontes, Pichin Plá, João das Neves, Armando Costa e Denoy de Oliveira, o grupo lança o espetáculo Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, de Vianinha e Ferreira Gullar, cujo título já é uma paródia da situação política então vigente.

Veio, em seguida, a montagem de A Saída? Onde Fica a Saída?, uma adaptação de Frederick Cock sobre a Guerra do Vietnã, escrita por Antônio Carlos Fontoura, Armando Costa e Ferreira Gullar, com destaques para as atuações de Vianinha e Célia Helena.

Em seguida, Vianinha apresenta ao grupo a leitura da sua peça Moço em Estado de Sítio. Autor prolífico, Oduvaldo Vianna Filho viu suas principais obras serem barradas pela censura. Mesmo assim, recebeu vários prêmios nacionais e internacionais: Quatro Quadras de Terra venceu o primeiro prêmio latino-americano da Casa das Américas, em Cuba, e recebeu dois prêmios Molière por Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come e A Longa Noite de Cristal.

Em 1973, sempre buscando o alcance dos segmentos populares da sociedade, se junta novamente a Paulo Pontes e Armando Costa para, na Rede Globo, criar o seriado A Grande Família, um sucesso premiado e tão retumbante que mereceu uma releitura recentemente.

Sempre seguindo a linha política do PCB de buscar agregar os setores democráticos da sociedade para derrotar a ditadura, Vianinha participou de todas as manifestações de massa e de contestação ao regime, entre elas a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. Foi um dos principais mobilizadores da classe artística, que teve uma presença massiva nos atos públicos.

O ano de 1974 seria trágico para Vianinha. O epílogo de uma trajetória de militante comunista, agitador cultural, gênio criativo e revolucionário que congregava o caráter político e a construção do liame com a cultura, instrumentos capazes de contribuir para a transformação das tragédias da vida brasileira.

A descoberta, em 1973, de um câncer já em estágio avançado não o fez desistir de escrever sua obra final, Rasga Coração. Impossibilitado de escrever, foi sua mãe, Deocélia, quem gravou os diálogos ditados por Vianinha e transcreveu o texto.
Outra tragédia foi a que se abateu sobre seu partido. Derrotada a luta armada contra o regime, a ditadura se voltou para o cerco e o aniquilamento do PCB.

Vianinha, que sempre teve uma vida legal, apesar de constantemente monitorado pelos organismos de segurança, não teve tempo de ver as prisões, os assassinatos e os desaparecimentos dos comunistas que se iniciaram naquele mesmo ano. Hoje já reconhecidos como fruto de delações. Nem de compartilhar com seus camaradas a anistia pela qual lutou e que viria alguns anos depois.A vida e a obra de Oduvaldo Vianna Filho, apesar de breves, não cabem em um artigo, um ensaio ou uma lembrança temporal. 

São muito mais. São raros aqueles que conseguem interpretar o cotidiano das pessoas, escapando da mera posição de narrador. Aqueles que, pelo gênio criativo, antropomorfizam a realidade em uma conjugação dialética entre arte, cultura e ciência. É essa conjugação que separa uma obra temporal de uma obra atemporal. É o que difere a obra de arte do panfleto. Do entretenimento ou da catarse, como bem diagnosticou Antonio Gramsci.

Vianinha era um desses. Um homem que poderia retratar um boleiro em Chapetuba, Lorde Bundinha em Rasga Coraçãoou Lineu em A Grande Família. São raros os que conseguem juntar a política e a cultura, valorando suas especificidades sem perder a essência.

Oduvaldo Vianna Filho foi um desses.

Notas e referências