No aniversário de trinta anos da Fundação Perseu Abramo algumas pessoas opinaram que a FPA deveria estar “à esquerda do Partido”. Compreendo o que se quis dizer, mas não estou de acordo com esta fórmula, por diversos motivos. O primeiro e principal motivo é que de nada adiantaria termos uma Fundação fazendo formulações “à esquerda”, se a conduta prática e cotidiana do nosso Partido não materializar estas formulações. O melhor que poderia resultar disto seria um “Partido 6×1”, que passaria a semana fazendo política tradicional, para nos almoços de domingo sonhar com uma sociedade diferente.
Indo direto ao ponto, acho que devemos lutar para termos um Partido à altura das necessidades históricas e imediatas, cabendo a Fundação contribuir nesse sentido. E a primeira contribuição, na minha opinião, é ajudar a identificar quais são as tais necessidades históricas e imediatas.
Em momentos normais da luta de classes, o imediato, o médio e o longo prazo estão a distâncias regulamentares, o que torna relativamente fácil distinguir o que é imediato e o que é histórico, o que é tático e o que é estratégico. Mas em momentos de crise profunda, como os que vivemos atualmente, no mundo inteiro, na nossa região e em nosso país, os tempos se misturam e, às vezes, os problemas “imediatos” exigem soluções “históricas”, pelo simples motivo de que alternativas gradualistas não dão conta dos problemas acumulados, nem mobilizam as paixões necessárias para nos tirar da inércia (ou, em outras palavras, para nos fazer sair da zona de desconforto).
Identificar as necessidades imediatas e históricas implica retomar com toda força três debates. O primeiro deles é o debate sobre as características do capitalismo no século 21. O segundo deles é o balanço das tentativas de transição socialista, seja as encerradas no século 20, seja as que continuam existindo no século 21. O terceiro debate é sobre “a revolução brasileira” ou, se quisermos usar um termo mais comedido, o debate sobre a formação social brasileira, sobre as alternativas de desenvolvimento postas diante de nossa sociedade, sobre as classes e as lutas de classe em nosso país, em todas as suas dimensões, inclusive de gênero, étnicas, geracionais e regionais.
Este debate só será útil, se for um debate que envolva todo o Partido, não com o objetivo de “ouvir” o que os intelectuais tradicionais têm a dizer, mas sim com o objetivo de provocar a intelectualidade orgânica do Partido – ou seja, centenas de milhares de dirigentes que estão à frente de diretórios, setoriais, núcleos, mandatos, governos, sindicatos e movimentos sociais – para que eles assumam seu dever, a saber, o de produzir uma interpretação sobre a realidade brasileira e uma estratégia para a transformar.
Agindo desta forma, a Fundação conseguirá fundir (no sentido de fusionar) seus diversos propósitos: o da pesquisa, o da formulação, o da formação e o da integração da intelectualidade profissional com o conjunto da classe trabalhadora. Espero que no seu aniversário de 60 anos, a FPA possa dizer que teve êxito nesta simples missão.
Valter Pomar é professor da UFABC e diretor de cooperação internacional na Fundação Perseu Abramo
