O lançamento do livro Uma Bibliografia do Marxismo no Brasil: dos primórdios a 1968 reuniu, na última sexta-feira, o autor, historiador e jornalista Dainis Karepovs, e os intelectuais marxistas Marcelo Ridenti, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp; Valério Arcary, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP); e Juarez Guimarães, do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O debate foi mediado pela assistente editorial da Editora Fundação Perseu Abramo, Raquel Costa.

O livro registra publicações produzidas e distribuídas em diferentes condições históricas, incluindo materiais de formação política, traduções, revistas, brochuras e edições clandestinas.

Uma pesquisa construída ao longo de 40 anos

Na abertura do debate, Dainis Karepovs contou que a elaboração da obra levou 40 anos e explicou algumas das peculiaridades da pesquisa.

“Comecei com a ideia de que talvez se pudesse fazer uma reedição revista e ampliada do livro do professor Edgard Carone, que é de 1986. De lá para cá, aconteceram vários eventos, em especial a abertura dos arquivos da polícia, de onde brotaram coisas de que a gente ouvia falar.”

“Nesse meio-tempo, faleceram várias pessoas que viveram esse período, pelo menos dos anos 1920 em diante, e que ainda estavam vivas quando eu comecei. Seus familiares começaram a se desfazer dos livros. Então, também fomos encontrando coisas. O resultado tomou um volume enorme e fez com que o considerássemos um novo livro, também com algumas alterações metodológicas”, relatou.

A obra é organizada por autor, em ordem alfabética, e apresenta o ano de cada edição e as editoras responsáveis, o que facilita as pesquisas. Traz ainda um anexo dedicado à literatura de viagem pelos países socialistas, produzida por pessoas que foram à União Soviética e a Cuba.

Para Marcelo Ridenti, a obra é um marco na construção de fontes bibliográficas para compreender a recepção do marxismo no Brasil, a história e a historiografia da esquerda e o próprio movimento editorial.

“É um livro que permite um mapeamento bibliográfico indispensável para quem estuda a cultura de esquerda no Brasil. E abarca livros e brochuras produzidos desde 1893 até 1968, o AI-5, o início da repressão, o tempo da ditadura e aqueles primórdios.”

“Também se destaca a edição, que tem uma capa linda e um caderno de imagens ao final que mostra capas de livros, algumas tão bonitas que parecem cartazes”, pontuou.

A força social da esquerda brasileira

Valério Arcary destacou o que considera um paradoxo entre o tamanho e a importância dos movimentos sociais brasileiros e a influência do marxismo produzido no país.

“A esquerda brasileira é social e politicamente uma das mais fortes mundialmente. Nos anos 1940, na sequência da Segunda Guerra Mundial, teve um dos maiores partidos comunistas, proporcionalmente talvez nivelado com o do Uruguai.”

“Depois, a partir dos anos 1980, com o surgimento do PT, um dos maiores partidos de esquerda construídos na virada do milênio. E a situação é tão impressionante que, a rigor, a seis semanas do processo eleitoral, o Brasil é hoje o espaço onde se faz a última batalha para tentar conter o avanço da extrema direita”, afirmou.

Arcary também citou a força dos movimentos sindicais e sociais surgidos ou consolidados no país.

“Vejam o papel dos sindicatos nos anos 1980. O Brasil foi o país recordista de horas de greve no mundo, competindo com a África do Sul, que estava sob o apartheid, e com a Polônia. Nenhuma classe trabalhadora do mundo fez tantas greves tão longas, e surgiu uma das centrais sindicais com força social das mais poderosas do mundo.”

“Temos o MST, que é um dos maiores movimentos de trabalhadores rurais, a UNE e, mais recentemente, uma nova geração do movimento feminista, do movimento negro e do movimento LGBT. Porém, quando nós pensamos no lugar do marxismo brasileiro no mundo, ele fica um pouco diminuído. Não tem uma presença equivalente, nivelada com a audiência, a influência e o respeito que tem a sua força social e política.”

Uma história ainda fragmentada

Juarez Guimarães observou que, quando se trabalha com a ideia do marxismo como uma práxis de emancipação dos trabalhadores do mundo inteiro, dada a sua característica fundamentalmente internacionalista, pode-se pensar em como este “livro dos livros” ajuda a construir uma história da formação e do desenvolvimento da cultura marxista no Brasil.

“Há décadas sinto essa dificuldade em relação à capacidade do marxismo brasileiro, e mesmo do internacional, de contar a sua própria história. Temos muitos estudos monográficos sobre os movimentos operários nas primeiras décadas do século XX, livros e teses sobre o Partido Comunista Brasileiro, algumas que procuram estabelecer uma visão mais geral da história.”

“Temos também estudos sobre a interpretação do Brasil, a questão agrária, o feminismo brasileiro e a formação do antirracismo, à qual compareceram autores marxistas referenciais, como Clóvis Moura e Lélia Gonzalez. Sobre a cultura brasileira também há um acúmulo, assim como sobre as questões referentes ao capitalismo brasileiro e ao seu lugar periférico”, afirmou.

Para Guimarães, a história do marxismo no Brasil ainda não constitui uma narrativa de sentido.

“Somos, então, marxistas que trabalham sem uma autoconsciência de sua história ou, pelo menos, com uma consciência fragmentada. Isso certamente é um limite histórico muito importante para o desenvolvimento do marxismo no Brasil. Penso que o trabalho de Dainis neste livro nos fornece indicações, pelo menos, para identificar cinco dimensões dessa narrativa de sentido”, concluiu.

Assista ao evento completo neste link.