A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.
Elizabeth Bishop – A poesia da americana Elizabeth Bishop tornou-se conhecida entre nós graças à divulgação póstuma da história de amor que partilhou com Lota Macedo Soares. Esta última foi a realizadora de uma obra notável, o Aterro do Flamengo, imenso jardim assinado por Burle Marx que abraça a praia do Flamengo em toda a sua extensão, impedindo que carros se interponham entre o jardim e a orla. É o único caso de uma obra desse tipo, no Rio. Elizabeth Bishop, a passeio no Brasil, conheceu Lota e as duas passaram a viver juntas, por muito anos. Após o regresso de Elizabeth aos Estados Unidos, Lota foi visitá-la e acabaria morrendo por lá, de excesso de soníferos. A obra de Elizabeth passaria a ter repercussão e a receber traduções, enquanto o convívio das duas seria objeto de livros e de filmes, como Flores Raras (2013). Um de seus mais famosos poemas, aqui transcrito, é uma pungente meditação sobre seus laços com Lota e com o Brasil.
