Todo mandato é minucioso
e cruel
eu gosto das frugais transgressões
por exemplo inventar o bom
amor
aprender
nos corpos e em seu corpo
ouvir a noite e não dizer
amém
traçar
cada um o mapa de sua audácia
mesmo que nos esqueçamos
de esquecer
é certo
que a recordação nos esquece
obedecer cegamente deixa
cego
crescemos
somente na ousadia
só quando transgrido alguma
ordem
o futuro
se torna respirável
todo mandato é minucioso
e cruel
eu gosto
das frugais transgressões
O uruguaio Mario Benedetti é indispensável. Por múltiplas razões. Por encarnar nessas quase oito décadas a lúcida loucura dos poetas… e dos orientais. Por – sem abdicar da lucidez – ter sempre escolhido um lado. Pelo exílio, por não render-se às imposições da censura ou da melancolia. Por Transgressões. Pela vasta produção em poesia – ressalto La casa y el Ladrillo –, novela – La Tregua –, conto – La Muerte y Otras Sorpresas –, teatro – Pedro y el Capitán –, crítica literária – Letras del Continente Mestizo – e para que Teoria&Debate dispense um olhar sobre a poesia do Continente…
Benedetti nos conduz às sensibilidades – diversas – do Continente e a uma certa geografia da alma ibero-americana que nos escapa na medida em que vemos seqüestrado nosso passado e somos encarcerados em uma espécie de presente circular e reiterativo que nos rouba qualquer possibilidade de futuro. E para transgredir nos convida a cantar “porque chove sobre o sulco/ e somos militantes desta vida/ e porque não podemos nem queremos/ deixar que a canção se torne cinzas”.
