Eu, nascida mulher e assolada
Por ânsias e caprichos da espécie,
Sou compelida a achar sua presença
Atraente, e sentir algum júbilo
No peso de seu corpo em meu peito:
Sutil, o perfume da vida faz
Clarear o pulso e ofuscar o tino,
Deixando-me desfeita, entregue.
Mas não pense que a mínima traição
Do sangue forte à vacilante mente
Vá nimbá-lo de amor, ou temperar
Meu desdém com mercê, – escute bem:
Um tal frenesi não é razão suficiente
Para falarmos, quando nos cruzarmos.
The Harp-Weaver
Edna St. Vincent Millay (1892-1950), favorita dos prêmios, coroou todos eles com o mais cobiçado dos Estados Unidos, o Pulitzer, pelo livro The Harp-Weaver, em que figura este soneto. Voz feminina ousada, exímia nas formas fixas como sonetos e baladas, metrificava e rimava bem, o que contrastava – trazendo um picante adicional – com sua aversão à pieguice. Mas combinava com temas políticos: militante, integrou o grupo de escritores, que incluiu John Dos Passos, Katherine Ann Porter e Michael Gold, entre outros, em vigília às portas da penitenciária quando da execução dos operários anarquistas Sacco e Vanzetti (1927, Boston). Diplomada por colégios para moças de elite como Barnard e Vassar, onde estudou no auge do movimento sufragista, seria uma feminista pelo resto da vida. Morando no Greenwich Village nova-iorquino, à época em que estudantes e artistas ali se concentravam para inventar novas formas de vida em comum e propiciar húmus às vanguardas, seria guindada a musa do bairro em sua alta época boêmia. Foi nesse período que colaborou com a companhia de teatro experimental off-Broadway, os Provincetown Players (que lançou a maioria das peças de Eugene O’Neill); e os dramas em versos que então escreveu, incluindo o libreto de uma ópera encenada no Metropolitan Opera House, ganhariam popularidade. O mais conhecido de seus poemas é uma celebração da vida, chegando às raias da petulância: Minha vela arde em ambas as pontas/ Não vai durar/ Mas ó amigos e inimigos/ Que adorável luz vai dar! Outro é o dístico: Seguras sobre a sólida rocha alinham-se casas feias:/ Venham ver que palácio resplandecente ergui na areia. Tais poemas solapam o clichê literário e lingüístico, zombando do comportamento convencional ao propor padrões de conduta tanto mais inovadores quanto mais rebeldes. Ninguém discute o lugar de Edna St. Vincent Millay como a maior voz da poesia feminina norte-americana na linhagem da reclusa Emily Dickinson.
