Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
[Paulo Henriques Brito, Trovar Claro, 1997]
Paulo Henriques Brito (Rio de Janeiro, 1951) adquiriu reputação como tradutor refinado, tendo seu nome associado ao de Wallace Stevens, um poeta nada fácil. Ampliaria o leque de trabalhos, especializando-se em poesia (Byron, Elizabeth Bishop) e prosa, ambas de língua inglesa (Henry James, Faulkner).
Poeta, contista, tradutor e professor, seus poemas relevam da concisão. Mais para o seco que para o derramado, é escasso e seletivo, mostrando preferência pelas formas fixas, que maneja admiravelmente.
No rigor de sua arquitetura, este sonetilho, vazado em redondilha maior, o setissílabo mais usual da língua portuguesa, vai desconstruindo a si mesmo. O sardônico primado da inteligência sobrenada sobre os clichês propositais. Assim, os lugares-comuns se engalfinham com o desencanto moderno. Ironia do arremate prosaico, a alta angústia existencial que permeia o poema contrasta com o súbito rebaixamento cômico do último verso.
Agraciado com frequência, o poeta recebeu entre outros o prêmio Biblioteca Nacional duas vezes e o Portugal Telecom. Suas coletâneas de poemas são: Liturgia da Matéria, Mínima Lírica, Trovar Claro, Macau, Paraísos Artificiais (contos), Tarde. Sintomaticamente, a mais recente intitula-se Formas do Nada (2012).
