Começou-m’a desejar
trabalhou por me servir
fortuna foi ordenar
dous corações conformar
a ~ua vontade vir.
Conheceu-me, conheci-o.
Quis-me bem, e eu a ele.
Perdeu-me. Também perdi-o.
Nunca té morte foi frio
O bem que, triste, pus nele.

Entre os mitos primordiais das literaturas em língua portuguesa figuram os amores de D. Inês de Castro e D. Pedro, mito vivo que até hoje volta e meia reaparece na pena dos escritores; sem falar na pintura, na escultura, na dramaturgia, no cinema. Tem a honra de ocupar páginas de Os Lusíadas, de Camões, enquanto Garcia de Resende se alinha entre seus autores mais antigos, pois até então a estória só constava de baladas populares e de uma crônica de Fernão Lopes. Poeta oficial da corte, Garcia de Resende praticou as formas de seu tempo, como a lira cortesã, a amorosa, a circunstancial e a de escárnio, em veia satírica. Seu mérito maior foi a compilação do célebre Cancioneiro geral, em que, junto com os seus, colige os poemas dos contemporâneos, preservando-os para a posteridade. D. Pedro, que reinaria de 1357 a 1367, fora o príncipe herdeiro da coroa de Portugal. Casado, apaixonou-se por D. Inês de Castro, com quem teve quatro filhos. Mas alguns fidalgos tramaram e executaram o assassinato dela, com a conivência do rei, pai de D. Pedro. Este, quando subiu ao trono,  mandou torturá-los às suas vistas e executá-los, fazendo arrancar o coração deles, de que se serviu numa bandeja. Depois, ordenou que exumassem os despojos de D. Inês, sepultada há dois anos, e que a colocassem no trono a seu lado. Coroou-a rainha de Portugal e obrigou a corte inteira a curvar-se  ao beija-mão. Repousam ambos lado a lado no Mosteiro de Alcobaça, onde, por desígnio seu, dois túmulos de mármore branco foram preparados e inteiramente esculpidos, cada um com um jacente. O poema é composto em décimas de redondilhas maiores, uma das formas primeiras do trovar luso; a estrofe que reproduzimos, enunciada por D. Inês, resume o fulcro da estória