Tuas mãos deixaram o fuzil
e a palavra.
Há o tempo dos fuzis
e o tempo da palavra.
A palavra se faz verso,
aço
e ternura.
Por isso a palavra vaza o tempo,
sempre visitará a boca dos insubmissos.

trecho do poema “Ressurreição”

Pedro Tierra vem de publicar um livro intitulado Dies Irae – Oito testemunhos indignados e uma ressurreição. O título em latim alude a um hino católico medieval sobre o Juízo Final, incluído até hoje na missa de réquiem e no ofício dos mortos. Traduz-se por “O dia da ira”,  ira divina, naturalmente, mas aqui impregnado a do poeta, ao apostrofar os iníqüos e a iniqüidade. O pequeno volume reúne textos elaborados ao longo dos últimos quinze anos e que iniciaram seu percurso dispersos por panfletos, cartazes, faixas, cartilhas, só agora ganhando página de livro. O próprio suporte em que figuraram já indica que se trata de uma raridade: a poesia militante. Inaugura o conjunto uma prosa candente, “Notícia dos sobreviventes”, escrita por quem esteve em Eldorado dos Carajás pouco após a carnificina dos inocentes e viu rastros do horror. Seguem-se oito poemas, em versos arrebatados e iracundos, com ressônancias bíblicas, perpetuando a memória das lutas populares e dos que nelas tombaram, para eterno alento dos combatentes, entre os quais se situa este poeta. Vate da rebeldia e da libertação, Pedro Tierra, que tem em seu acervo vários livros de poemas, é parceiro do autor do prefácio Pedro Casaldáliga na Missa da terra sem males e na Missa dos quilombos. Completam o volume ilustrações de Otávio Roth, extraídas do Calendário 1979 da Campanha pela Anistia.