Uma multidão de crianças
que só queriam brincar portando espadas de papel
perdeu-se no tempo
João Suzuki -Um dia qualquer do final de agosto de 1969, os organismos de repressão do Rio de Janeiro prenderam um homem. Motivo: há dias, ele estava sentado numa praça frente a uma agência bancária. Era um publicitário. Torturado dias seguidos, o publicitário – que não pertencia a qualquer organização de esquerda, com as quais sequer tinha contato – resolveu se auto-incriminar, pensando que assim parariam as torturas. Primeiro, inventou pertencer a uma organização guerrilheira. Como precisasse dar-lhe um nome, “confessou” ser membro da Apolo11 (nome da nave espacial lançada pelos EUA àquela época). A tortura não parou. Se há uma organização existem militantes. O publicitário pegou sua agenda e desfiou aleatoriamente uma série de nomes e endereços do Rio e de São Paulo. Várias pessoas foram presas e torturadas sem saber o motivo. Inclusive uma atriz, presa com o marido foi estuprada na Oban-SP.
Entre os presos em conseqüência da Apolo-11, estava o poeta desta edição, o artista plástico João Suzuki. Suzuki foi preso em São Paulo numa manhã do começo de setembro. A repressão montou campana e cercou a casa do pintor desde a véspera. Pela manhã, esperou Suzuki sair com sua filha de aproximadamente quatro anos. Quando já longe de casa e sem nada perceber, Suzuki entrou numa padaria (ou bar), foi preso e levado para quartel da Polícia do Exército. A filha foi dele apartada e não lhe deram qualquer notícia do destino. Na Oban, todo tipo de tortura e nenhuma informação sobre a criança. Interrogatório sobre a Apolo-11 e outras sedições das quais ele jamais ouvira falar. Sequer sabia quem era o publicitário, pois este apenas conhecia Suzuki por tê-lo visto expondo seus trabalhos numa praça. E, por ter gostado dos quadros, anotou o endereço do artista.
Jogado numa cela da Oban, o pintor lá encontrou um grupo de jovens militantes, cujas idades variavam entre 17 e 25 anos. Suzuki pouco se comunicou com qualquer deles. Na situação em que fora colocado, tudo devia lhe parecer uma alucinação. Assim, numa manhã, os presos ao acordarem depararam com uma inscrição feita por Suzuki na parede da cela, usando pontas de fósforos queimados. Alguns presos gravaram de memória o texto. Gravaram as palavras, mas não a cesura dos versos. Poderíamos ter o mesmo poema que publicamos na capa em quatro versos: “Uma multidão de crianças/ que só queriam brincar/ portando espadas de papel/ perdeu-se no tempo”. No entanto, escolhemos consolidar o texto em três versos por graficamente se aproximar da estrutura de um baicai – cujo sentido de reflexão e síntese guarda a inscrição de Suzuki -, ainda que a estrutura desta forma poética japonesa implique dois versos pentassílabos e o segundo, heptassílabo. Suzuki continua pintor, e sua filha deve estar adulta. Sua inscrição naquela cela da Oban é o poema que escolhemos para esta edição. (AF)
