Meu pai foi para mim “o assassino”,
até os vinte anos, quando o conheci,
e vi que este meu dom dele recebi.
Tinha no rosto meu olhar azulino,
na dor um sorriso astuto, doce. E
vagou sempre no mundo peregrino,
amando e dormitando aqui e ali.
Era alegre e leviano, pois o peso
da vida só a minha mãe cabia.
Das mãos ele escapou-lhe qual balão.
“Não imites teu pai, é o que te almejo.”
Mais tarde percebi o que então não via:
eram raças em antiga tensão.
(tradução de João Moura Jr.)
UMBERTO SABA nasceu em Trieste, em 1883, e morreu em Gorizia, em 1957. Considerado um dos principais poetas italianos deste século, sua obra se caracteriza pelo lirismo e pela acentuada dimensão autobiográfica. Profundamente ligado à tradição humanística do Europa Central, feitor de primeira hora de Freud e Nietzsche, ele é autor de uma poesia que expressa com aparente simplicidade a difícil condição existencial do indivíduo. Franco Fortini, ilustre crítico literário, disse que a magia de Saba consiste na sua clareza plena de gritos sufocados e lágrimas, e que o triestino é um poeta popular no único sentido que se pode dor a esse adjetivo: poeta de um povo.
