O mundo é feito de pontos.
São muitos se forem pontos de vista.
Poucos se forem pontos estratégicos.
Muito úmidos se forem pontos de chuva.
O mais gostoso é ponto de encontro, mas às vezes desencontra.
Os pontos de luz, um homem e uma mulher nus.
Todos são pontos.
O caminho entre dois uma reta.
Uma linha.
Um caminho que caminha sozinho.
Fim da linha.
Ou do fio.
Fio da meada é na conversa.
Conversas são feitas de pontos de enfoque.
O palco também.
Amores são pontos em comum.
Os pontos são um.
(Poema sem título, Cupido: Cuspido, Escarrado, 2004)
O poeta da edição – O poema em prosa de Estrela Ruiz Leminski aqui estampado enovela-se em torno do balé semântico da palavra “ponto”, esboçando um gracioso minueto enquanto explora suas virtualidades. O jogo coloquial e descolado faz malabarismo com a porfia tanto linguística quanto poética, a que não falta uma pitada ácida de humor – o que já se nota no título Cupido: Cuspido, Escarrado, do livro em que o poema figura. A autora é polivalente, pois, além da escrita, seus múltiplos talentos incluem o jornalismo e a composição musical, tendo a seu crédito vários CDs gravados. Nascida em Curitiba em 1981, não nega o sangue: é filha de dois poetas, Alice Ruiz e Paulo Leminski.
