Leia a posteridade, ó pátrio Rio,
Em meus versos teu nome celebrado;
Por que vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio:
Não vês nas tuas margens o sombrio,
Fresco assento de um álamo copado;
Não vês ninfa cantar, pastar o gado
Na tarde clara do calmoso estio.
Turvo banhando as pálidas areias
Nas porções do riquíssimo tesouro
O vasto campo da ambição recreias.
Que de seus raios o planeta louro
Enriquecendo o influxo em tuas veias,
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.
O mineiro Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) estudou em Portugal, formando-se bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra. Homem de posses, além de advogado e administrador, era minerador e fazendeiro. Morreria solteiro, deixando vários filhos com escravas.
Construiu sua obra poética dentro da estética do Arcadismo, ou Arcádia. Pertenceu ao que se rotulou como Escola Mineira, uma constelação de poetas que nem sempre pertenciam à mesma geração, integrada, entre outros, por Alvarenga Peixoto, Basílio da Gama, Santa Rita Durão e sobretudo aquele que lhe era mais próximo, Tomás Antonio Gonzaga. Este acabaria por sobrepujá-lo em popularidade, devido às liras de Marília de Dirceu, que, mais acessíveis que os graves sonetos de Cláudio, são reeditadas até hoje. Cláudio, junto com os amigos Gonzaga e Alvarenga Peixoto, envolveu-se na Inconfidência Mineira. Enquanto os dois seriam desterrados para a África, Cláudio morreria na prisão, logo no começo da devassa, por suicídio ou assassinato.
Seu principal livro, Obras, foi publicado em Portugal em 1768. A exemplo dos demais poetas, Cláudio utilizava o pseudônimo de Glauceste Satúrnio, conforme a convenção arcádica. Deixaria também a sátira Vila Rica, poema épico póstumo.
Nos sonetos, destaca-se a perfeita metrificação do decassílabo neoclássico. Compostos dentro dos ditames do Arcadismo, não destoam dos versos que se faziam à época na Europa, onde vicejou o movimento, comportando ecos do barroco e do maneirismo. Conforme tais ditames, a persona do poeta é a de um pastor a apascentar seus rebanhos. A lira amorosa é consagrada a várias musas, todas com nomes de “pastoras” ou ninfas: Nise, Lise, Antandra, Alcina, Eulina, Daliana. O estro melodioso inclui a tópica da invocação à natureza como confidente e consoladora. A convenção arcádica postula uma natureza gentil, de prados e flores, com pastores e ninfas: a de Cláudio é ligeiramente mais rústica e pedregosa, “mineira”, colonial.
