Quero paz e liberdade
sossego e fraternidade
na nossa pátria natal
desde a cidade ao deserto
quero o operário liberto
da exploração patronal

quero ver do sul ao norte
o nosso caboclo forte
trocar a casa de palha
por confortável guarida
quero a terra dividida
para quem nela trabalha

eu quero o agregado isento
do terrível sofrimento
do maldito cativeiro
quero ver o meu país
rico, ditoso e feliz
livre do jugo estrangeiro

Patativa do Assaré (1909-2002) – Autor de folhetos de cordel, Antonio Gonçalves da Silva foi lavrador desde menino. Cego e pai de nove filhos, viveu no sertão do Ceará por 93 anos bem vividos. O verso em redondilha maior que é seu nome de guerra sacramenta os dotes de pássaro canoro do poeta.

Estreando com o livro Inspiração Divina, viria a compor vários, como Ispinho e Fulô, culminando em Cordéis – Patativa do Assaré. Outro livro seu, Cante lá Que Eu Canto cá, teve o título alçado a lema da reunião anual da Sociedade para o Progresso da Ciência (1979), em Fortaleza, na euforia da abertura. O homenageado compareceu e deu um recital.

O disco Poemas e Canções foi o primeiro de muitos. Filmes lhe seriam dedicados, como o de Rosemberg Cariry. Gravado inicialmente por Luiz Gonzaga (“A Triste Partida”), seria descoberto por outros cantores, que o incluíram em seus repertórios. A partir daí, reeditaram-se seus livros, publicaram-se antologias, surgiram mais filmes e discos.

Antes de tudo, foi um cantador, ou seja, um poeta popular, compositor, repentista e improvisador, acompanhando-se na viola em pelejas e cantorias, quase sempre no verso mais comum da redondilha, raramente aventurando-se ao decassílabo.

Cidadão consciente, nasceu e morreu em Assaré, apesar de todas as honrarias de que foi alvo, inclusive o título de doutor honoris causa por três universidades. Participou da campanha das Diretas Já e muito versejou sobre a reforma agrária e outros temas reivindicatórios, denunciando a injustiça e a opressão que pendem sobre o povo.