Aqui jaz quem teve a sorte
De ser tão valente e forte,
Que o seu cantor alegou
Que a Morte não triunfou
Da sua vida coa sua morte.

Foi grande a sua bravura,
Teve todo o mundo em pouco,
E na final conjuntura,
Morreu: vejam que ventura,
Com siso vivendo louco!

D. Quixote, de Cervantes, completou quatrocentos anos em 2005.

O protagonista, Alonso Quijano, ensandecido de tanto ler novelas de cavalaria, decidiu investir-se cavaleiro andante. Desenferrujadas e reparadas as armas, é preciso um corcel – e um cavalo de pobre rendimento, um rocim, torna-se Rocinante. Uma bacia de barbeiro vira elmo. Procura-se um escudeiro – e ali está Sancho Pança, enxundioso, poltrão e pragmático. Mas falta uma musa inspiradora, a cujos pés o Cavaleiro da Triste Figura possa depor suas proezas. Uma lavradora dos arredores é renominada Dulcinéia del Toboso e proclamada inigualável em formosura, donaire e brio. Está pronto D. Quixote.

Entre D. Quixote e o universo ilusório para o qual o desvario o arrebata, posta-se a literatura: objeto de libelo porque enlouquece o herói, de glória porque arvora o condão de transfigurar o mundo.

Paródia da novela de cavalaria, porta-voz da burguesia ascendendo rumo ao poder, D. Quixote critica tanto a classe que intenta apear quanto a literatura que a expressa. Dos mais precoces, antecede as comédias para palco O Barbeiro de Sevilha e As Bodas de Fígaro, de Beaumarchais, que ainda não surgiram no horizonte, com todo o cortejo de filhotes que suscitariam, entre peças de teatro e óperas, convocando até os talentos de Mozart e Rossini. Antes, La Serva Padrona, de Pergolesi, já ia no mesmo rumo. Vê-las, hoje em dia, com saber retroativo, é perceber o que vinha por aí, e que selaria a derrocada da aristocracia. Libertárias, anunciam a subversão, à boa moda setecentista; e, como no Quixote, dão vazão ao humor plebeu.

Inaugurando o romance burguês, a narrativa mostra não só o que uma classe subalterna, em vias de tornar-se dominante, pensa de seus amos: também a literatura que produz é violenta irrisão da literatura que expressa os valores da outra. A novela de cavalaria tornou demente Alonso Quijano, por exaltar a honra, a glória, os feitos da nobreza. Este livro é sua carnavalização e espelho duplamente invertido. O poema que se segue, da autoria de Cervantes, celebra a trajetória do herói.