?Que vêm fazer aqui

os lilases de abril de tom eliot

nos poros da estática estouradaça

da caixa de som do rap e do xote?

? esse mantra do abril anglicano

na sirene ligada da língua saturno e onano

do rapper e seu programa de paupéria e glória

do terceiro-urbano?

Personas e máscaras dos poetas

do mundo inteiro, uni-vos

e no mesmo passo desuni-vos

no despaisado da vossa condição e lilases:

Tal qual a zona liberada,

num palco da periferia do Brasil,

como a composição de um novo terno

e de um vasto mundo conato,

por tom eliot, seu pelo lilás pentecostal,

e o sujeito marrento no palco,

se a realidade não escreve

nem jamais escreveu,

ela ensaia uma ficção suprema,

entrar e sair do seu lugar nos livros,

e realizar-se no destino emancipado do poema.

José Maria Cançado é ainda mais conhecido como crítico literário e ensaísta, publicado há mais de três décadas nos principais jornais e revistas do país. Nos anos 80 editou o saudoso Leia Livros, em sua fase literária mais brilhante. É autor de três livros preciosos que visitam parte de sua condição humana desde sempre literatizada: Marcel Proust – As Intermitências do Coração (Brasiliense, 1983), Sapatos de Orfeu (Scritta, 1994), sobre Drummond, a ser reeditado em breve,  e Memórias Videntes do Brasil  (Editora da UFMG, 2003), sua tese de doutoramento sobre a obra de Pedro Nava. Sua condição autoral pública, que existiu sempre à sombra, irrompeu sob o signo da poesia em O Transplante É um Baião de Dois (Scriptum, 2004). Este livro, ao mesmo tempo belo e terrível, escrito a partir do CTI após um transplante de coração, é todo expansão e explosão da língua, disposta a sustentar este lugar personalíssimo do público. Velho coração, jovem coração: incapaz de suportar as “próprias dores” e, no entanto, mais vasto que o mundo. Como um Drummond radical. Extraído do livro ainda inédito Rumo à Estação da Ficção Suprema, no qual a tonalidade autobiográfica se acentua em prol de uma mais vasta ainda circulação, o poema publicado nesta edição amalgama a dicção do poeta inglês à voz rascante do rapper, conformando a utopia despaisada e para além das classes do poeta.