Parto esse pão que outrora foi centeio
Esse vinho sobre uma árvore estranha
Submersa em seus frutos
O homem durante o dia ou o vento à noite
Derrubaram as searas e esmagaram a alegria das uvas.

Outrora nesse vinho, o sangue do verão
Pulsava na carne que recobria a videira,
Outrora nesse pão
O centeio era feliz ao vento;
Mas o homem dilacerou o sol e abateu o vento.

Essa carne que espedaças, esse sangue que permites
Trazer desolação às veias
Eram as uvas e o centeio
Nascidos da seiva e de sensuais entranhas;
Meu vinho que bebes, meu pão que abocanhas;

Certas vidas são premonitórias, ou talvez tão arrebatadoras que arrastam consigo outras vidas pelo poder de sedução e vertigem que carregam. De algum modo atou sua vida breve ao ritmo dilacerante do tempo que testemunhou. Foi um poeta que buscou identificar até o absoluto seu verso com o cotidiano delirante que vivia, o que fez dele uma espécie de beat por antecipação. Dylan Thomas nasceu em 1914, quando explodia a Primeira Grande Guerra, e sucumbiu a uma hemorragia cerebral em 1953, no St. Vincent Hospital, em Nova York, quando o mundo tentava se recompor da catástrofe da Segunda Guerra. Entre uma e outra se tornou uma celebridade – sua voz seduzia milhares de ouvintes da BBC -, produzindo uma poesia extraordinariamente vigorosa, construída de imagens e ritmos personalíssimos. Escreveu Retrato do Artista Quando Jovem Cão (1940), Under Milk Wood e, em 1952, quando pressentia a morte que buscara, autorizou a publicação dos Poemas Reunidos, traduzidos por Ivan Junqueira e editados pela José Olympio.