Papoulas pequeninas, pequeninas chamas do inferno,
Vocês fazem, não fazem mal?
Bruxuleiam. Não posso pegá-las.
Ponho as mãos entre as chamas. Sem queimar.
E me exaure olhá-las
Bruxuleando assim, vermelho vivo e rugoso como mucosa de uma boca.
Boca em hemorragia.
Babados hemorrágicos!
Há fumaças impalpáveis para mim.
Onde os seus narcóticos e suas nauseantes cápsulas?
Se eu sangrasse ou dormisse! –
Se minha boca desposasse uma ferida assim!
Ou seus extratos escoassem por mim nesta cápsula de vidro,
Entorpecendo e aquietando.
Mas sem cor. Sem cor.
A fama pessoal da norte-americana Sylvia Plath (1932-1963) precederia a divulgação de sua poesia. Quando morreu, suicidando-se aos 30 anos, pouco tinha publicado. Escreveu prosa, diários, cartas, pequenas ficções e relatos, mas foi em poesia que se alçou à grandeza. Sua notoriedade transformou-a em vítima e mártir, além de celebridade póstuma. A nada disto pôde assistir, nem à fortuna que seu espólio renderia. A “maneira Sylvia Plath” só vai aparecer nos poemas que ficaram inéditos quando de sua morte. Essa maneira é de uma imagética grandiosa e negra, ou seja, coalhada de metáforas inusitadas e associações ousadas. Destacam-se a presença da morte, da mutilação e do sangue, a exemplo de certos ícones como a cor vermelha, o osso, o espelho, a lua. Brota a conjuração de uma figura paterna assustadora, a invocação das forças obscuras do inconsciente, as pulsões de autodestrutividade sempre rondando. São imagens que vão derivando umas das outras e se metamorfoseando em símbolos de uma lírica extremamente pessoal, por isso mesmo hermética. Tinha alta consciência de ser poeta, acreditando no primado do burilamento formal. Só acertou a mão pouco antes de morrer, quando num jato de inspiração escreveu uma série de poemas no lapso de poucos meses. O livro Ariel, fruto dessa fase, seria editado postumamente por seu marido, o inglês Ted Hughes, também poeta, responsável igualmente pela publicação de seus diários íntimos e de outros livros. Sua mãe, Aurelia Plath, traria a público um volume de cartas, a ela endereçadas pela filha. Posteriormente, mais de três décadas após o suicídio, e no ano de sua própria morte, Ted Hughes publicaria Birthday poems, em que elabora a crônica poética de sua vida em comum. Despertando um culto póstumo ardoroso, até o túmulo de Sylvia seria profanado por fãs que roubaram suvenires. Um destino tão extraordinário mostrou-se fértil em biografias, que se multiplicaram, reminiscências e memórias de outras pessoas que a conheceram, e até filmes. Quanto ao poema que figura na quarta capa, lembramos que vermelho era sua cor, como diz Ted Hughes justamente no poema intitulado Red, que encerra o livro que lhe dedicou.
