das grades
do branco

(assim
natura)

razão e sina
fiam a sua
rasura ou arte

(Max Martins, Poemas Reunidos, 2001)

O poeta Max Martins (1926-2009) pertenceu ao ilustre grupo de intelectuais e artistas de Belém do Pará que se formou na esteira do Modernismo. O grupo compreendeu, entre outros, Mário Faustino, Benedito Nunes, Haroldo Maranhão, e incorporou, entre os membros da geração seguinte, Age de Carvalho e Lília Chaves. Dentre todos, logo tiveram repercussão nacional na crítica Benedito Nunes e na poesia Mário Faustino, que cedo se foi para o Rio de Janeiro, onde dirigiu o renovador e influente Caderno B do Jornal do Brasil, e cedo nos deixou.

Culto e estudioso, partilhando as qualidades que caracterizam o grupo, Max Martins mostra-se fiel a suas origens, mas mantem-se ligado ao resto do mundo através de leituras e viagens. Nota-se em sua poesia, em constante evolução, esse diálogo com outros poetas do Brasil e do vasto mundo. Foi publicando livros de poemas ao longo dos anos, entre os quais O Estranho, Anti-Retrato, H´Era, O Risco Subscrito, A Fala entre Parêntesis, Caminho de Marahu, Poemas de Marahu, Colmando a Lacuna.

Dá uma ideia da força de seu talento este poema minimalista, quase um haicai expandido, ou um epigrama, inteiramente construído com substantivos, inclusive um adjetivo substantivado. Nele, qualquer palavra supérflua, seja adjetivo ou advérbio e até verbo, está cancelada. De saída, a metáfora instaurada pelo paralelismo entre a página de rosto de um livro e o rosto de uma pessoa orienta o que vem em seguida: num rosto também se escreve, ou ao menos se inscreve, o resultado que a passagem do tempo traz tanto em ganhos quanto em perdas. Resta dessa decantação extrema um autorretrato, ou uma meditação sobre a própria face, reduzida a seu âmago, conforme a experiência de vida lhe impôs eliminações e elaborações.