No Brasil, a crise causada pela covid-19 combinou-se com o bolsonarismo e a instabilidade política preexistente e ganhou novos contornos, o que gerou múltiplos planos de conflito institucional – (1) dentro do próprio governo federal; (2) entre os níveis federativos (com governadores e prefeitos estaduais); (3) com os demais poderes da República (Judiciário e Legislativo) e (4) junto à sociedade internacional – e produziu as causas centrais do agravamento do que se tornou uma sindemia no país entre os anos de 2020 e 2021.
Apesar de ser uma questão extremamente ampla e complexa, os vetores centrais do agravamento da crise sanitária, política, social e econômica no Brasil nesse período foram: (a) o simbolismo presidencial, que ao longo de toda a crise sanitária negou a ciência e as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) junto à população brasileira; (b) a ausência do federalismo cooperativo, como resultado da falta de liderança e articulação da administração Bolsonaro nos âmbitos federal, estadual e municipal para a formulação de políticas públicas eficazes, (c) a gestão do Ministério da Saúde do Brasil, que teve as suas lideranças alteradas diversas vezes ao longo da pandemia e diversos atores envolvidos com escândalos de corrupção e superfaturamento de vacinas, e (d) a subdiagnosticação/subnotificação de casos, devido aos baixíssimos níveis de testes que foram realizados na população brasileira, por conta da morosidade do governo federal em adquirir os reagentes necessários para viabilizar o processo em ampla escala e a politização irrestrita que o bolsonarismo imprimiu ao tema.
O resultado foi a formação da tempestade perfeita para o Brasil. Um cenário de incertezas, colapso sanitário e social, descrédito internacional, falta de harmonia institucional, insegurança pública, destruição do meio-ambiente e recessão econômica poucas vezes – ou talvez jamais – verificado na história da Nova República, justamente durante a maior pandemia dos últimos cem anos.
Desta forma, nenhum outro tema é mais relevante para entendermos o atual cenário sociopolítico e econômico do Brasil – bem como o caráter e os níveis das mudanças sociais que vêm ocorrendo no país após a calamidade – do que refletir sobre a interação entre o bolsonarismo (com os seus diversos instrumentos políticos, administrativos e sociais) e a crise causada pela covid-19.
Com a economia devastada, o segundo maior número de óbitos registrados em decorrência da doença em todo o planeta , a explosão da violência, da criminalidade e da intolerância, escândalos de corrupção do governo federal, desavenças internas e externas de todas as ordens, todos os indicadores sociais apontando a deterioração dos padrões de vida e o desmatamento recorde das suas florestas e regiões de preservação, a nação viu-se confrontada com os efeitos práticos que utilizar o ódio, o medo e os elitismos histórico-culturais combinados às redes sociais digitais para eleger os seus líderes representativos acarretam, invariavelmente. Assim, lamentavelmente para o Brasil, a ascensão do bolsonarismo ainda coincidiu com a pior pandemia do século.
Evidentemente, a altíssima quantidade de vítimas fatais verificada pelo país durante a pandemia reflete fatores que transcendem a administração bolsonarista. A ausência de saneamento básico para mais de cem milhões de brasileiros, o baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e a concentração de capital e de renda exacerbada que vigora no Brasil são, inquestionavelmente, aspectos históricos e socioculturais que foram preponderantes para que o país se tornasse a nação mais atingida pela covid-19 em todo o planeta, basicamente. Contudo, a atuação do governo de Jair Bolsonaro é o outro ponto nevrálgico para refletir sobre essa questão.
