O jogador Richarlison afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões em uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), e acusa o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de ter tomado o imóvel “na mão grande”. Segundo o atleta, a perda da posse ocorreu depois que ele recusou propostas de venda, incluindo uma atribuída ao senador e candidato à Presidência. Ambos negam irregularidades.
Documentos e vídeos reunidos pela Revista Fórum acrescentam suspeitas à disputa. A apuração destaca três elementos relacionados à transferência dos direitos de ocupação para a WT Administração de Imóveis e Bens S.A., empresa ligada a Tomaz: uma assinatura apontada como falsa em parecer grafotécnico particular, uma empresa com cadastro inapto na Receita Federal e uma negociação omitida em processo judicial.
O terreno pertence à União. A controvérsia envolve os direitos de ocupação registrados perante o governo federal e os contratos particulares pelos quais Richarlison e seus sócios afirmam ter adquirido a posse do imóvel.
Assinatura contestada e empresa inapta
Segundo a Fórum, um parecer grafotécnico particular aponta divergências em assinaturas presentes na documentação relacionada ao negócio, levantando suspeitas de falsificação.
Outro ponto envolve a M. Locadora de Veículos e Transportes Turísticos Ltda., empresa que reivindicou o imóvel na Justiça e posteriormente transferiu os direitos de ocupação à WT. Uma consulta à Receita Federal registrou que seu CNPJ estava inapto desde dezembro de 2018 por omissão de declarações obrigatórias.
A documentação também revelou uma promessa de compra e venda assinada em 25 de abril de 2022, antes da ação possessória apresentada pela M. Locadora, em maio daquele ano. Essa negociação não havia sido informada ao juízo.
Transferência na SPU e decisões judiciais
A transferência foi reconhecida pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) enquanto o imóvel ainda era objeto de disputa judicial. A certidão autorizativa foi emitida em 11 de julho de 2022, em modalidade especial adotada diante de um impedimento no sistema informatizado. O procedimento para emissão da certidão começou e terminou no mesmo dia. A conclusão do processo de regularização ocorreu em 12 de julho.
Na época, a superintendência da SPU no Rio de Janeiro era comandada pelo coronel do Exército Paulo da Silva Medeiros, nomeado durante o governo Jair Bolsonaro e apontado em reportagens como indicação de Flávio Bolsonaro.
Em resposta obtida pelo ICL Notícias por meio da Lei de Acesso à Informação, a SPU afirmou não ter identificado irregularidades durante a análise e declarou que as alterações cadastrais foram fundamentadas nos documentos pessoais e cartoriais apresentados.
Na Justiça, a omissão da promessa de compra e venda levou à revogação de uma liminar favorável à M. Locadora, em 18 de julho de 2022, com determinação de reintegração dos réus na posse. Posteriormente, o processo foi extinto após a renúncia das empresas ligadas a Richarlison. A WT permaneceu como titular dos direitos de ocupação no cadastro da União.
Vídeos mostram policiais e homem com fuzil
Vídeos obtidos pela Fórum mostram agentes fardados da Polícia Militar do Rio de Janeiro e homens armados no imóvel após uma reintegração de posse. Um deles aparece com um fuzil.
Ao analisar as imagens para a reportagem, o criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, afirmou que a situação parecia “coisa de milícia”. Na avaliação do advogado, os homens aparentavam atuar em benefício de um grupo privado.
Uma testemunha ouvida pela Polícia Federal em 2024 afirmou que a segurança no local “não era privada e não parecia ser regular”.
Pedido de investigação e negativas dos envolvidos
Em vídeo divulgado na quarta-feira (21), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ter pedido à Polícia Federal que investigue as circunstâncias da perda do imóvel por Richarlison. O jogador também divulgou documentos que, segundo ele, comprovam os pagamentos e os direitos adquiridos sobre a propriedade.
Em resposta à Fórum, a defesa de Willer Tomaz afirmou que a reintegração de posse ocorreu por ordem judicial, negou irregularidades e declarou que Flávio Bolsonaro jamais participou da disputa possessória ou da segurança do imóvel. O advogado sustenta que sua empresa adquiriu legalmente os direitos de ocupação e cita decisões judiciais favoráveis, inclusive no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Flávio nega participação na compra, venda ou intermediação do imóvel. O senador confirma a amizade com Tomaz, mas afirma ter sido arrolado apenas como testemunha na disputa judicial.
