Teu ventre sabe mais que tua cabeça
e tanto quanto tuas coxas.
Essa é a forte graça negra
de teu corpo nu.
Signo de selva o teu,
com teus colares rubros,
teus braceletes de ouro curvo,
e esse crocodilo obscuro
nadando no Zambeze de teus olhos
Camagüey deu aos cubanos o poeta que encarnou, talvez, da maneira mais cabal o que foram as paixões, os sonhos, a música, a denúncia, a dor e a alegria desse povo fascinante, ao longo do século 20: Nicolás Guillén. Nasceu em 1902 e começou a publicar nos anos 20 uma poesia negra – mulata, preferia ele – e rebelde, que haveria de percorrer o século como percorreu o continente, dialogando com outros ritmos, afirmando livremente uma sensualidade franca, desconcertante, fecunda, sem por isso se afastar de um permanente e agudo sentido de justiça. A poesia de Nicolás Guillén explode com a mesma força seminal em um terreiro de rumba ou na Plata de la Revolución em uma homenagem ao Che. Sirvo-me de uma preciosa definição de Roberto Fernandez Retamar sobre Guillén: ” Para ele a poesia negra (…) não foi uma ‘moda’ e sim um ‘modo’: parte dela e, burilando-a no aspecto formal, carregando-a de sentido social, a faz desembocar em uma formosa poesia de raiz popular ou uma poesia social que é a melhor realizada nessa escola.
