Ainda que a democracia resista em diversas partes do mundo, pelas mãos de representantes do campo progressista como Lula, no Brasil, e Gustavo Petro, na Colômbia, a ameaça de ideais autoritários segue em curso e mantém a luta contra a extrema direita como pauta prioritária. Para vencê-la, um dos caminhos é ampliar a unidade global, mobilizar movimentos populares e eleger o máximo possível de lideranças de esquerda.

Este foi um dos pontos debatidos durante uma das mesas da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, ocorrida entre os dias 26 e 29 de março de 2026, na cidade de Porto Alegre (RS), com a participação de 3.500 pessoas de mais de 40 países. O evento se consolidou como um dos principais encontros realizados para enfrentar o avanço da extrema direita no calendário atual. 

Na mesa “Resistência, Articulações e Alternativas Democráticas”, realizada no sábado (29), participaram Donka Atanassova (vereadora do Pacto histórico-Colômbia), Manon Aubry (Eurodeputada do LFI/França, vice-presidenta do grupo The Left), Fernanda Gadea (ATTAC/España), Ana Maria Prestes (SRI/PCdoB), Roberto Robaina (vereador e presidente do PSOL/Porto Alegre), e Valter Pomar (diretor de Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo). A medição foi de Damian Hazar, representante do Fórum Social Mundial.

A primeira a falar foi Fernanda Gadea e um dos assuntos enfatizados por ela foi a perseguição sem precedentes aos imigrantes na Europa e como a Espanha tem conseguido ir na contramão do continente ao abrir as portas para pessoas de outros países. “Recentemente, a nossa luta conseguiu legalizar a permanência de mais de 800 mil imigrantes com documentação. Infelizmente é preciso que um papel comprove a existência de alguém”, resumiu. 

Embora a ameaça da extrema direita seja permanente, Fernanda se mostrou otimista com a articulação dos campos progressistas com ações e eventos agendados para acontecer no mundo todo. Um dos destaques da agenda é o Fórum Social Mundial, que será em Cotonou, Benim, na África Ocidental, entre 4 e 8 de agosto. “Precisamos cobrar dos países considerados emergentes que revejam suas políticas imigratórias e que abaixem as suas cabeças e peçam perdão de verdade pela dívida que possuem com as demais nações. Isso deve ser feito com ações, não com palavras”. 

Donka Atanassova, da Colômbia, elogiou a realização da Conferência Antifascista em Porto Alegre, mas alertou para a urgência em ampliar os espaços de debate e articulação contra os avanços da extrema direita. “Vamos precisar cada vez mais qualificar os espaços de luta que temos e conseguir fazer essa fortaleza em termos de organização. Temos que valorizar as experiências ocorridas no mundo todo e que têm conseguido fazer o enfrentamento contra esse poder que ameaça a diversidade dos povos. Para vencê-lo, precisamos ampliar a nossa força e unidade”.

O atual governo colombiano (2022-2026) é liderado por Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da história do país e marca também a força dos movimentos populares locais. A marca de sua gestão até agora tem sido a realização de diversas reformas, como a trabalhista e da aposentadoria. No entanto, seu trabalho tem sido constantemente ameaçado pelos interesses da elite colombiana, alinhada com o conservadorismo e com ideais autoritários. 

Brasil inspira França

A deputada francesa Manon Aubry endossou o posicionamento de que é preciso realizar o enfrentamento de maneira global e citou o Brasil como exemplo de luta popular. “É preciso unir os fronts e é muito importante dizer que o movimento do qual faço parte na França tem como slogan “um outro mundo é possível”, ideia que surgiu aqui no Brasil e que inspirou as nossas mobilizações. Nós somos herdeiros dos movimentos populares e sociais brasileiros e que ecoaram na França”.

Manon apresentou um panorama do cenário político francês com a ascensão de partidos de extrema direita e a validação de discursos de ódio. “No cotidiano esses grupos fascistas votam contra o aborto num dia, contra a população LGBT no outro e depois contra a população estrangeira. Por isso eu quero dizer aqui que todo mundo que se diz de esquerda e que não participa da luta contra essa escalada da extrema direita colabora com o outro lado”. 

A ativista aproveitou para convocar todos os militantes e movimentos sociais para que sigam trabalhando na ampliação e renovação da esquerda no mundo. “Não podemos pedir desculpas por ser de esquerda. Temos que ter orgulho. Vamos à luta”. 

Inspiração no passado 

Ana Maria Prestes, do PCdoB, fez questão de ressaltar a trajetória de importantes movimentos progressistas do Brasil como a Coluna Prestes, iniciada no Rio Grande do Sul. “Há 100 anos saía daqui a Coluna Prestes e marchou mais de 25 mil quilômetros e um dos primeiros movimentos de libertação e denúncia contra a opressão de um governo autoritário no país. Também quero lembrar que Luís Carlos Prestes pela criação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), primeira iniciativa antifascista do Brasil”, exaltou Ana, que é neta do revolucionário conhecido como Cavaleiro da Esperança. 

A Aliança Nacional Libertadora (ANL) foi uma frente ampla de esquerda brasileira, fundada em março de 1935, com caráter anti-imperialista, antifascista e anti-integralista. Com forte apoio do PCB e liderança nominal de Luís Carlos Prestes, a organização popular defendia reforma agrária, não pagamento da dívida externa e um governo popular.

Ana encerrou sua fala listando os casos recentes de ataques fascistas, sobretudo orquestrados pelo presidente dos EUA, Donald Trump, como a captura de Nicolás Maduro, na Venezuela, e a guerra iniciada no Irã. “Alguém tem dúvida de que esses povos estão sofrendo com as bombas que impactam todos nós? O cerco contra Cuba, por exemplo, é um cerco contra todos nós. E não se enganem, pois toda a América Latina está na mira de Trump. Temos que ficar de olho no que está acontecendo e ampliar a nossa resistência”. 

Combate simultâneo

O diretor de Cooperação Internacional da FPA, Valter Pomar, elogiou a realização da Conferência Antifascista e lembrou que iniciativas semelhantes já haviam sido organizadas no passado, mas que não tiveram êxito por diversas razões. “Por isso é muito importante que façamos um bom balanço dessas atividades e que na nossa opinião é perpetuar a diversidade, como ocorreu nesta edição, o lugar correto e adequado que se dá aos partidos e movimentos populares, e enfatizar o que acontece na América Latina e na África, espaços que têm papéis decisivos para uma outra correlação de forças internacional”.

Pomar reiterou que o combate ao fascismo exige combater o neoliberalismo e o imperialismo. “O problema é que o epicentro desses movimentos autoritários são os Estados Unidos, que são também o epicentro do capitalismo. Mas nós não temos medo de mobilizar a classe trabalhadora e os povos nesta luta. Nossas ideias são melhores, mas precisamos de força para lutar contra eles. Nós não queremos apenas resistir. Nós queremos vencer. Nós queremos derrotar antes que eles derrotem a humanidade e inviabilizem a vida no planeta. Nossa vitória tem que começar desde já, com eleições no Brasil, na Colômbia e em todos os cantos do planeta”.

Roberto Robaina, do PSOL, finalizou ao lembrar que os “desafios estão à nossa frente” e a unidade da esquerda é urgente. “A experiência histórica mostra que é necessária a unidade. A unidade não significa o ocultamento das diferenças, não debater as diferenças, mas significa definir os elementos primordiais que devem nos unir. A união contra o fascismo é uma bandeira básica. Nós seguiremos firmes. No Brasil o nosso desafio é derrotar Bolsonaro porque ele é a representação do fascismo por aqui. Este é o desafio eleitoral que está posto e ele só será vencido se ocuparmos também as ruas”.