No calendário cívico e político brasileiro, o dia 25 de outubro guarda um significado profundo e inesquecível porque foi nessa mesma data, em 1975, que o país viveu um dos momentos mais marcantes de sua história com a morte do jornalista Vladimir Herzog nas instalações do DOI-CODI. Naquela ocasião, o regime militar tentou forjar um suicídio, uma farsa que provocou imediata e profunda indignação popular e que, dias depois, levou a Catedral da Sé, em São Paulo, a reunir mais de 8 mil pessoas em um histórico ato ecumênico liderado por Dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor James Wright, figuras centrais na resistência à ditadura e na defesa dos direitos humanos.

A comoção pelo assassinato de Vlado uniu o movimento estudantil, a classe artística, a imprensa e a sociedade civil, se tornando o grande ponto de virada que acelerou a resistência e o processo de redemocratização do Brasil, além de transformar a figura de Herzog no símbolo da luta pelos direitos humanos que consagrou o 25 de outubro como o Dia Nacional da Democracia.

Em 2026, a história nos coloca diante de um encontro simbólico e marcante, quando o 25 de outubro coincide exatamente com o domingo do segundo turno das Eleições presidenciais. Longe de ser um mero acaso do calendário, essa coincidência surge como um chamado da nossa memória coletiva, iluminando a decisão urgente que precisamos tomar no presente.

A urna como pilar da cidadania

A democracia não é um arranjo formal ou um texto estático, mas sim um processo contínuo de disputa e soberania popular no qual a transição para a votação 100% eletrônica, consolidada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), garante hoje que mais de 158,7 milhões de eleitoras e eleitores exerçam sua cidadania em um dos sistemas eleitorais mais auditáveis, seguros e céleres do mundo.

O ato de votar no segundo turno sintetiza a escolha soberana do projeto de sociedade que desejamos construir, especialmente porque a experiência recente nos ensinou que a soberania popular é a única salvaguarda contra retrocessos institucionais e o único caminho sustentável para a promoção da igualdade social, dos direitos humanos e do desenvolvimento com distribuição de renda.

A memória como escudo

Como a nossa democracia é jovem, recente e constantemente testada, afinal, não faz sequer quatro décadas que reescrevemos o pacto social na Constituição de 1988, a fragilidade desse sistema ficou dolorosamente evidente há pouco tempo, quando assistimos perplexos à tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, num ataque orquestrado contra os Três Poderes e contra a soberania do voto popular. Aquela sanha autoritária revelou até onde a extrema-direita está disposta a ir para corroer as instituições e suprimir direitos, fazendo com que, neste domingo, o eleitorado brasileiro enfrente novamente essa encruzilhada decisiva no segundo turno entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro, já que o retorno de um projeto de extrema-direita representa o risco real de retrocesso social, de desmonte das políticas públicas e de ameaça contínua às liberdades democráticas, não podendo permitir que o medo e o obscurantismo voltem a governar o nosso país.

Diante desse cenário, a resposta do povo brasileiro não será o recuo, mas a coragem de uma nação aguerrida e calejada pelas lutas históricas que aprendeu a defender o direito de existir com dignidade, compreendendo que a democracia não é uma abstração jurídica, mas sim algo que se materializa na comida no prato, na saúde pública universal com o SUS fortalecido, na educação de qualidade para os nossos jovens e na garantia de que o Brasil permaneça um lugar de esperança e alegria.

Compromisso com o futuro do país

Defender um projeto baseado no desenvolvimento social é reafirmar o compromisso com um Brasil socialmente justo, soberano e acolhedor, garantindo que o nosso país siga no caminho onde as famílias vivam com segurança, acesso a direitos fundamentais e horizontes de prosperidade. Como a defesa das nossas instituições é indissociável da luta diária pela igualdade social e pelos direitos humanos, não há espaço para neutralidade quando o futuro da nossa gente está em jogo.

Nesse 25 de outubro, honrar a memória de Vladimir Herzog e de todos os companheiros e companheiras que tombaram pela liberdade significa sair de casa com consciência, altivez e coragem, depositando na urna eletrônica mais do que um voto: firmando a nossa determinação inabalável de proteger o Brasil, assegurar o bem-estar do nosso povo e garantir que a democracia permaneça viva.

Brenno Almeida é economista e presidente da Fundação Perseu Abramo