das cerejeiras em flor
ao pinheiro de dois troncos
mil anos em três meses
O haicai, forma lírica tradicional japonesa, compreende três versos curtos, usualmente simplificados nas traduções. Uma epifania, expressa na fulguração de uma única intuição lírica o instantâneo que a inspirou, com concisão e despojamento. Fala da perícia que o haicai exige, o minimalismo de sua exigüidade e condensação. Disseminou-se pelo mundo, com cultores ilustres, que teorizaram a respeito, como Ezra Pound e Octavio Paz. Entre nós, tivemos praticantes e estudiosos, encontrando-se um verdadeiro adepto em Paulo Leminski.
Conforme tese de Mário Yasuo Kikuchi (Tanka: O poetar enquanto atividade prático-sensível de velhos imigrantes japoneses – 1991), a composição de haicais serviu de consolo ao expatriamento, no caso, no Brasil. Camponeses iletrados tornam-se poetas, dando vazão a sentimentos conflitantes, debatendo-se entre a nostalgia da origem e os anseios de uma vida melhor no novo país. Também os samurais guerreiros concebiam um poema de despedida – se possível, em pinceladas -, antes de cometer haraquiri e transitar da vida para a morte.
O haicai aqui reproduzido trata de um freqüente tema do gênero: a floração da cerejeira, que dura uma semana no início da primavera, e que suscita multidões de peregrinos no Japão. Ao convidar à contemplação, a flor rósea simboliza ao mesmo tempo que celebra a fugacidade da vida e a impermanência da beleza. As cerejeiras dos parques que cercam os templos de vez em quando desprendem uma florzinha, que flutua, girando e morrendo, até o chão, a essa altura atapetado de pétalas ao ponto de abafar as pisadas do passante. Entre os muitos e valiosos estudos que existem sobre o gênero entre nós, escolhemos uma tradução feita por Carlos Verçosa, no livro Oku – Viajando com Bashô (1995). O seiscentista Bashô (1644-1694) é o mais famoso dentre os autores de haicais, já mil vezes traduzido para as mais diferentes línguas.
