Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
Bagagem
Ao estrear em livro nos anos 1970, Adélia Prado desconcertou os leitores, desacostumados àquela mistura de religiosidade com erotismo. Poetas contemporâneos não primam por ser religiosos; e, se por acaso o são, passam ao largo do erótico (a exceção pode ser Hilda Hilst – mas de outra maneira). Boa poesia católica nos legou o Modernismo, com Jorge de Lima e Murilo Mendes; mas, para entender melhor o ineditismo dessa mescla em nossos tempos é preciso remontar a Santa Tereza de Ávila, San Juan de La Cruz e Sóror Juana Ignés, cujos versos falam do ardor da paixão, nos anseios de fusão com a divindade. Algo que Adélia adapta ao corriqueiro, deixando transparecer a sombra do São Francisco de Assis dos Fioretti, leitura que freqüenta. Todavia, enquanto o santo pedia perdão ao “Irmão Corpo” por macerá-lo com penitências, Adélia prefere explorar os mistérios gozosos. Passo a passo foi erigindo uma obra original, que louva o amor humano enquanto dimensão do amor divino, aspirando à simbiose entre o sagrado e o profano. O discurso coloquial camufla o quanto de sua dicção é burilada,a ponto de parecer simples, mas jamais simplória: a linguagem chã fala do sublime. Na pena de Adélia, as visitações do transcendente irrompem no ramerrão do cotidiano, em meio às tarefas domésticas de que as mulheres se incumbem imemorialmente, e que ela não desdenha. É nesse mesmo quadro que Eros faz sentir sua presença. E, afinal, tudo isso é matéria para poesia. Livro após livro soube esquivar o supérfluo e o redundante, para publicar com prudência volumes delgados, comprimindo trinta anos de produção em quinhentas páginas. O poema que segue constitui uma espécie de declaração de princípios – de ente de carne, devota e poeta – que deliberadamente rebaixa o nível do estilo para eleger o rés-de-chão de que se nutre. Nem por isso deixa de confessar o quanto ansiava ver-se em livro, o que faz com a pitada de humor que reponta de vez em quando em seus versos, no registro da auto-ironia.
