Garoa do meu São Paulo,
– Timbre triste de martírios –
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
Passa e torna a ficar branco.

Meu São Paulo da garoa,
­– Londres das neblinas frias –
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.

Garoa do meu São Paulo,
Costureira de malditos –
Vem um rico, vem um branco,
São sempre brancos e ricos…

Garoa, sai dos meus olhos.

Mário de Andrade (1893-1945) nasceu, viveu e morreu na capital paulista,  que cantou como nenhum outro. Em Paulicéia Desvairada (1922), seu primeiro livro de poesia propriamente modernista, versejou: “São Paulo! comoção de minha vida… / Galicismo a berrar nos desertos da América!” No mesmo ano, foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, na qual fez uma conferência, aliás bastante vaiada.

Teórico do Modernismo e seu principal propagador, além da obra pessoal em poesia, ficção e ensaio, consagrou-se à militância jornalística, institucional e epistolar. Nessa última atividade, destaca-se por ter escrito a maior correspondência literária do país, cerca de 10 mil cartas. Com Macunaíma (1928), atingiria o apogeu da prosa modernista.

Praticou uma poesia de andamentos dilatados e poemas extensos, voltada para a meditação. Repetidas vezes reconheceu-se dividido entre a autenticidade brasileira e a herança européia, como declara em outro verso: “Sou um tupi tangendo um alaúde!”

A obra lírica já publicada e os inéditos foram reunidos no volume póstumo Poesias Completas (1966).