Marine Le Pen é condenada e fica inelegível: extrema direita francesa sofre revés histórico
Marine Le Pen é condenada por desvio de verbas e fica inelegível por cinco anos, comprometendo sua candidatura à presidência da França

Marine Le Pen e outras 23 pessoas foram condenadas por desvio de verbas públicas do Parlamento Europeu. A líder da extrema direita francesa recebeu uma pena de quatro anos de prisão, sendo dois anos em regime domiciliar, enquanto seu partido, o Rassemblement National, foi multado em €2 milhões.
Em julgamento realizado em Paris, um painel de três juízes considerou Marine Le Pen culpada de participar de um esquema que desviou fundos da União Europeia, originalmente destinados ao pagamento de assessores parlamentares, para financiar operações internas do partido e até para custear um guarda-costas que lhe prestava serviços pessoais. Outros 23 membros do Rassemblement National também foram condenados pelo esquema.
Marine Le Pen, filha mais nova de Jean-Marie Le Pen, entrou para o partido fundado pelo pai, então chamado Front National, ainda na adolescência. O partido, amplamente associado ao fascismo, passou por uma reformulação sob sua liderança, sendo renomeado para Rassemblement National. A mudança ocorreu após Jean-Marie Le Pen minimizar o Holocausto como “um detalhe da história”, o que levou Marine a afastá-lo da direção. Jean-Marie Le Pen faleceu em janeiro deste ano.
A líder da extrema direita francesa, que também é advogada, deixou o tribunal antes da leitura do veredito. Na sentença, ela e outros oito ex-deputados do Parlamento Europeu, além de 12 assessores, foram declarados culpados de desvio de fundos. Embora não tenham sido condenados por apropriação indevida para uso pessoal, a justiça entendeu que os recursos foram utilizados para fortalecer o partido internamente.
Após três tentativas frustradas de chegar ao Palácio do Eliseu, Marine Le Pen havia anunciado que 2027 seria sua última candidatura presidencial. Seu nome figurava como favorito para o próximo pleito, impulsionado pela ascensão da extrema direita na Europa e pelo impacto da eleição de Donald Trump nos EUA.
Segundo Patrick Maisonneuve, advogado do Parlamento Europeu, um dos responsáveis pela acusação, a recusa de Le Pen em assumir qualquer responsabilidade influenciou a decisão do tribunal. O promotor destacou que, ao negar todas as acusações e não reconhecer as irregularidades, a líder do Rassemblement National demonstrou risco de reincidência, o que levou à aplicação imediata da sentença, incluindo a proibição de disputar eleições por cinco anos.
O partido foi multado em €2 milhões, sendo que metade do valor foi suspensa. Enquanto a defesa de Marine Le Pen já anunciou que recorrerá da decisão, os prazos processuais tornam praticamente inviável uma candidatura presidencial em 2027, pois a inelegibilidade passa a valer de imediato.
Esquerda se fortalece com a punição
O principal adversário de Marine Le Pen no campo progressista segue sendo o partido França Insubmissa, liderado por Jean-Luc Mélenchon.
Christian Rodriguez, antropólogo e psicólogo responsável pelas Relações Internacionais da França Insubmissa, celebrou a condenação: “É um bom sinal para a democracia quando o Estado de Direito finalmente prevalece diante do discurso de ódio e da violência na política.”
Rodriguez também comparou o caso de Marine Le Pen ao julgamento de Jair Bolsonaro, que se tornou réu na última semana: “Quer seja essa retórica praticada por Le Pen na França ou por Bolsonaro no Brasil, é uma boa notícia para a América Latina, onde a extrema direita também se beneficia do impulso global gerado por Trump e Milei. Esse julgamento reforça que a extrema direita não é um ator político qualquer e que não tem lugar em uma democracia saudável, livre de violência no discurso e na ação”, disse ele à Focus.