“O combate inflacionário é uma escolha política”, defende Deborah Magagna em entrevista
Em entrevista à Focus Brasil, Deborah Maganga analisa inflação, juros e dólar, questiona o papel do mercado e afirma que política monetária é também decisão política

Foto: Reprodução/ICL
O combate à inflação costuma ser tratado como uma decisão técnica, restrita a planilhas e modelos. Para a economista Deborah Magagna, não é bem assim. “O combate inflacionário é uma escolha política. A forma como você combate a inflação é uma escolha política”, afirma.
Apresentadora do programa ICL Mercados, no YouTube, ela se dedica a traduzir indicadores e relatórios para além do jargão do mercado financeiro, com atenção especial ao impacto das decisões econômicas no cotidiano.
Com passagem de quase 12 anos pelo mercado financeiro tradicional, Deborah diz que decidiu mudar de rumo quando percebeu que “no banco, tudo vinha mastigado – a opinião era sempre institucional”. A busca por autonomia intelectual a levou ao ensino e à produção de conteúdo próprio, com foco em conjuntura e formação crítica.
Expectativas, juros e os limites do diagnóstico ortodoxo
Nesta entrevista a economista analisa o papel dos relatórios Focus e do Banco Central Europeu na formação das expectativas sobre inflação, juros, dólar e crescimento. Para ela, a expectativa “muitas vezes é mais importante do que o dado em si”, pois orienta decisões de investimento, consumo e política econômica.
Deborah questiona a leitura predominante de que a inflação decorre principalmente de excesso de demanda. Em um cenário global marcado por choques de oferta, como petróleo, alimentos e conflitos geopolíticos, sustenta que a taxa de juros não pode ser tratada como único remédio.
“Você pode subir juros para sufocar a demanda e controlar a média dos preços, mas isso não significa que todos os preços estão se comportando bem”, diz.
Ao longo da conversa, ela também avalia o desempenho recente da bolsa brasileira, as projeções para o dólar e o alcance do acordo Mercosul-União Europeia, apontando como expectativas, política monetária e cenário internacional se entrelaçam na definição dos rumos da economia brasileira.
Leia a entrevista completa de Deborah Magagna à Focus abaixo.
Quando é que você começou a estudar economia? O que te despertou interesse por esse assunto?
Quando se pensa em economista, as pessoas não imaginam alguém como eu – vão logo para aquele perfil conservador, homem, principalmente. Por isso, precisei trilhar um longo caminho até chegar aqui. Quando eu decidi cursar Economia, costumo dizer que tive uma boa inspiração e uma nem tão boa assim. Quando eu estava no terceiro ano do ensino médio, nas aulas de sociologia, precisei fazer um trabalho e escolhi Celso Furtado e a Sudene e me apaixonei pelo assunto. Foi ali que senti: é isso que quero estudar. A outra motivação, essa sim distante da minha trajetória atual, veio de uma visão romantizada do mercado financeiro – aquela ideia de filme dos anos 2000, gente correndo com cafezinho na rua, aquela loucura de gente falando na bolsa… Eram duas visões distintas, mas que juntas me levaram à Economia. Passei quase 12 anos no mercado financeiro. Até que pensei: está na hora de mudar. Percebi que estava apenas reproduzindo ideias prontas, sem criar, sem pensar com autonomia. No banco, tudo vinha mastigado – a opinião era sempre institucional, isso começou a me incomodar. Queria contribuir mais, trabalhar com dados, produzir conteúdo próprio, não apenas repetir o que me entregavam. Tentei mudar de área no banco, mas era difícil pois a mobilidade é limitada. Só encontrei espaço fora da instituição, e essa foi a virada na minha carreira. Foi então que deixei o mercado financeiro e fui para o ICL, inicialmente como professora, mas já envolvida na preparação de material didático e em estudos de conjuntura – sempre com o olhar voltado ao ensino. A economia estava se tornando algo que me fazia questionar se eu estava no lugar certo, tamanho o conflito com minhas ideias e valores.
Sua especialização é falar sobre mercados. Recentemente, saíram o relatório Focus e o do Banco Central Europeu, qual a utilidade desses documentos para quem quer entender de economia sem ser especialista?
Eu sempre falo que, quando a gente pega um relatório econômico, fica pensando: como isso vai afetar o meu dia a dia? As pessoas olham uma projeção de inflação e acham que a economia é algo distante, que não tem a ver com a vida real, mas a economia tem tudo a ver com o nosso cotidiano, ainda que a gente não perceba. Se sai uma taxa de juros nos Estados Unidos, isso mexe com a expectativa da taxa de juros aqui no Brasil e acaba influenciando quem só quer financiar uma moto, a dificuldade é traduzir isso. O relatório Focus, por exemplo, traz as principais projeções macroeconômicas do país: IPCA, PIB, Selic, do dólar. A expectativa da inflação é mais importante até do que o dado em si, porque é ela que baseia as decisões que serão tomadas a partir dali. Quando a expectativa de inflação sobe, como vemos no Brasil hoje, os agentes econômicos pensam: os preços vão subir e, nessa expectativa autorrealizada, a gente pode entrar numa cilada – as pessoas sobem os preços porque acham que vão subir e eles realmente sobem. Esse relatório, respondido por agentes do mercado financeiro, acaba direcionando as expectativas das pessoas para a Selic, para o PIB, para o dólar. Alguém que vai viajar fica acompanhando a projeção do dólar, alguém que tem negócio vê a inflação subindo toda semana e pensa em reajustar preços. Essa expectativa molda o sentimento econômico e, quando falamos de investimento, mais ainda: sem uma boa expectativa para frente, as decisões de investir não são tomadas no presente. Mas o Focus tem uma faca de dois gumes, ao mesmo tempo que traz projeções, está cheio de intenções de quem responde; saber diferenciar o que é projeção real do que é torcida é importante. O Focus é um garoto de recados das instituições financeiras para o governo. Se aprovam as medidas de política econômica, dão uma pausa nas pressões, se estão descontentes, tentam se fazer ouvidos por meio do relatório. Por isso é preciso ler com cuidado, pois ele acaba influenciando a expectativa de muita gente, mas ali pode estar apenas um recado de uma instituição financeira ao governo. Ainda assim, traz perspectivas importantes para entender como estão essas projeções.
No caso, então, da zona do euro, a expectativa é de uma inflação que vai aumentar de 2026, 2027, 2028, e o crescimento não segue essa mesma lógica, com a inflação aumentando. Como é que isso pode afetar a nossa economia interna? Qual é a diferença entre o clima econômico previsto no relatório do Banco Central Europeu e no da Focus?
O que eu vejo, até pensando em formação de expectativa, é que as pessoas olham e se perguntam: como a inflação está acelerando se o país não está crescendo? Isso entra numa outra discussão, pensando de forma global.
Quando tem inflação, o país não cresce, não é isso?
Existem duas formas de olhar. Os ortodoxos olham de certa forma: se você começa a crescer acima do seu potencial – e aí existe um PIB potencial que ninguém sabe muito bem como é calculado, é uma incógnita, cada um pode ter sua metodologia – isso é usado inclusive no Focus como instrumento de pressão. Se você cresce acima desse PIB potencial, aí vai gerar inflação, porque você está crescendo mais do que poderia e para o Brasil isso é sempre muito limitante, quando começam a crescer, começam a aventar que vai ter inflação vinda desse crescimento acima do potencial. Pensando desse lado mais ortodoxo, um crescimento mais contido faria a demanda cair e você não teria inflação de demanda. E aí entra no ponto a que eu queria chegar: pensando de forma global, a gente tem uma inflação que vem muito da oferta. Só que os teóricos mais ortodoxos da economia têm muita dificuldade de colocar essa inflação de oferta na conta da mesma forma que usam a da demanda. A inflação de demanda seria: tem muita gente demandando aquele bem, aquele serviço, então o preço sobe, mas a gente tem o lado da oferta também: se a oferta está enxuta, o preço também sobe. As duas coisas precisam ser calculadas e olhadas. Quando se olha só para a demanda, você acaba tendo leituras errôneas do diagnóstico da inflação e da economia; quando você olha pelo lado da oferta, vai ver que, de forma global, os preços estão subindo por uma série de questões que não vão ser resolvidas com taxa de juros. O petróleo, por exemplo, é negociado no mercado internacional, conflitos em territórios produtores ou importantes para a logística sobem o preço do petróleo; se a OPEP diminui a oferta, sobe o preço do petróleo; se decide aumentar, cai. O petróleo é uma variável que ninguém controla muito diretamente, e a taxa de juros não vai ter efeito. Se o preço do petróleo sobe, os combustíveis ficam mais caros. No caso do Brasil, a dependência da malha rodoviária e do diesel faz os bens finais chegarem mais caros na nossa casa por conta do frete. É uma inflação que vem de uma questão de oferta do petróleo, mas desencadeia um aumento geral de preços que não vai ser resolvido com a taxa de juros e não tem nada a ver com o país crescer ou não, com a demanda crescer ou não. A gente tem que saber separar o que é da oferta e o que é da demanda. O que eu vejo hoje, de forma global, é uma inflação de oferta pressionando bastante. Questões relacionadas aos alimentos, devido às condições climáticas e a todas as tragédias climáticas que a gente vem enfrentando, estão levando os preços dos alimentos a subir de forma global, porque no comércio internacional não se fala de comida, se fala de commodity; o alimento é pensado enquanto commodity, não para alimentar as pessoas. Se uma seca excessiva ou uma chuva excessiva acabam com a produção, a oferta de alimentos diminui, e aí começa um aumento de preços. A mesma coisa com o petróleo: questões logísticas, questões geopolíticas de conflito, tudo isso mexe com os preços internacionais. E a inflação fica acelerada não porque o país está crescendo e tem muita demanda – até porque a gente vem de uma demanda muito reprimida da pandemia. Quando você tem essa questão de oferta, isso precisa ser levado em consideração, até porque aumenta o patamar global da inflação. O que ainda falha é um olhar mais atento para essa inflação de oferta, inclusive para pensar em metas de inflação em um segundo momento. Pensando na zona do euro, ainda temos questões de crescimentos desiguais dentro da própria zona – é preciso olhar por região, por país, mas olhando de forma geral, o que vejo é que ainda falta esse olhar mais cuidadoso para a inflação de oferta, para que o diagnóstico da inflação seja mais correto e o combate inflacionário também. Aí eu acho que falha, nesses relatórios que vêm de mercado, porque eles vão colocar: ‘o PIB vai crescer, então vai ter inflação’, independente das outras condições, acho que simplificam muito.
Você acha que dá para dizer que a inflação parece mais comportada na Europa do que no Brasil? E essa expectativa de crescimento entre os dois coloca o Brasil numa situação melhor, já que o Focus projeta o crescimento brasileiro em 1,8% em 2026 e 2% em 2028?
É boa notícia, porque o Brasil continua crescendo acima da média dos países desenvolvidos. O crescimento europeu está menor. Os países desenvolvidos têm projeções abaixo da média global, que é puxada para cima por asiáticos como China e Indonésia. O Brasil está melhor que os países desenvolvidos, mas um pouco abaixo da média global. O que vejo, tanto no Brasil quanto na União Europeia, é uma desaceleração do crescimento. De 2023 para cá, os países continuam crescendo, mas, a cada ano, a expectativa é que cresçam menos. No Brasil, a taxa de juros desempenha papel enorme nessa desaceleração, sufocando o crescimento. Na zona do euro, os desafios são outros: não há taxa de juros tão restritiva quanto a nossa, mas há dificuldade de engrenar crescimento. E ai, eu volto para aquele ponto: se você diagnostica a inflação como de demanda, acha que taxa de juros é excelente remédio, isso vem acontecendo globalmente, com juros em patamares mais altos desacelerando o crescimento mundial, tudo está interconectado. A desaceleração acontece em magnitudes diferentes. O Brasil ainda cresce acima de Europa, Estados Unidos e Reino Unido. Ainda temos um fôlego um pouco maior para crescimento.
O que é que atrapalha mais a queda da inflação no Brasil?
O combate inflacionário é uma escolha política. A forma como você combate a inflação é uma escolha política, porque você pode subir juros para sufocar a demanda e controlar a média dos preços, mas isso não significa que todos os preços estão se comportando bem, dá para ter inflação controlada na média enquanto combustíveis e alimentos sobem. No ano passado, tivemos desaceleração do preço dos alimentos, o que é positivo porque pesa mais no bolso das famílias de menor renda, mas a questão central é: como combater a inflação sem penalizar quem mais precisa? Existem alternativas, como estoques reguladores, crédito mais barato para a agricultura familiar. O problema é que, desde o governo Temer, os estoques reguladores foram zerados, recompô-los leva tempo. Subir a taxa de juros é a ferramenta padrão, mas não necessariamente ataca a causa da inflação. O Banco Central tem autonomia, mas a escolha de subir juros para sufocar a demanda é uma decisão com consequências. Ela pode até controlar a inflação via câmbio – juros altos atraem dólar especulativo, que segura o câmbio – mas é um recurso que não vai para o lado produtivo da economia. É capital especulativo, que sai quando deixar de ser interessante. Tem também os preços dolarizados: insumos, matérias-primas, combustíveis, se o dólar sobe, tudo isso fica mais caro. Atrair recurso para baixar o câmbio é importante, mas não com o custo econômico e social de uma taxa de juros tão alta. Está na hora de rever esse combate inflacionário e a taxa de juros não pode ser vista como o único remédio, é um remédio amargo, que pode piorar o paciente no médio e longo prazo. O Brasil tem historicamente juros altos, usados para conter inflação e oscilação cambial, mas isso atrai recurso especulativo, não investimento produtivo. Tudo é escolha política. No passado, zeraram impostos federais sobre combustíveis para baixar o preço na marra, agradando uma camada da população; enquanto isso, os preços dos alimentos disparavam, penalizando justamente quem tem menor renda. Todas essas escolhas são políticas em alguma medida.
Com relação ao desempenho da bolsa, como tudo isso que você explicou se atrela a esse bom momento que a bolsa tem vivido nos últimos meses, batendo recorde atrás de recorde? Você acha que esse desempenho vai se manter ou é algo que pode não se sustentar?
Para entender o movimento atual da bolsa, é preciso olhar para trás. Quando o pacote de ajustes fiscais foi divulgado no fim de 2024, o mercado reagiu muito mal. Não porque o pacote não entregava a economia que o mercado queria – entregou até mais –, mas porque a forma do ajuste não era a que o mercado esperava. Não veio com cortes incisivos em saúde e educação. O mercado ficou cético, reagiu de forma negativa, e a bolsa derreteu. Aquela queda não significava que as empresas perderam valor de produção, era um recado. O mercado é fiscalista e quer controle fiscal do seu jeito; quando discorda, vende na bolsa, compra dólar, eleva juros futuros, foi o que aconteceu no fim de 2024. Quando 2025 chegou, a realidade se impôs, nada daquilo aconteceu. O dólar não bateu em R$ 7,00, como projetavam, a bolsa começou a recuperar. Os preços estavam baixíssimos, não condiziam com a realidade das empresas. E aí entra 2026. O investidor estrangeiro, preocupado com a imprevisibilidade de Donald Trump, quer diversificar o risco. Começa a olhar para emergentes; entre eles, o Brasil oferece menor risco e está muito depreciado, com potencial de valorização. Então, o dinheiro estrangeiro entrou aqui no começo deste ano como não entrou no ano passado inteiro, não vamos ser inocentes: esse recurso entra de forma especulativa, para ganho de curto prazo. Aproveita a oportunidade criada pelo próprio derretimento anterior – que foi uma aposta contra o Brasil. Agora, esse capital estrangeiro entra para ganhar com a taxa de juros altíssima e com a bolsa depreciada, e isso faz a bolsa bater recordes e também ajuda a controlar o dólar. O que sustenta esse fôlego, apesar da taxa de juros, são medidas que mantêm o consumo: a valorização real do salário mínimo – algo deixado de lado em governos anteriores – e a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil reais. Isso coloca dinheiro nas mãos das pessoas, que gastam, e o consumo gira a economia. O emprego está bom, o desemprego está baixo, as negociações salariais estão positivas. A gente só não está em uma situação pior por causa disso, porque a taxa de juros já mostra efeitos negativos, principalmente na indústria. É um sinal de alerta: ainda temos fôlego, mas por conta dessas medidas que mantêm a demanda aquecida.
Com relação ao dólar, essa projeção de R$ 5,50 nos próximos anos para o Brasil é positiva? É boa? É ruim? Como você avalia essa expectativa e do que ela depende?
Eu sempre falo que o dólar é a variável mais difícil de prever. Depende de uma série de fatores: das políticas monetárias dos Estados Unidos, do preço das commodities – já que somos país exportador –, da atratividade do recurso para cá e de questões internacionais que fogem ao nosso controle. O mercado erra sistematicamente a previsão do dólar. O que o Focus faz normalmente é colocar uma projeção próxima da cotação do mercado à vista e ir revisando ao longo da semana conforme o cenário muda. Eu acho que o dólar tende a ficar abaixo desses R$ 5,50 por boa parte do ano. Temos experienciado um dólar mais contido por conta da entrada de recurso estrangeiro. E por mais que a gente pense que dólar não tem nada a ver com quem não vai viajar, ele tem: preços dolarizados na economia, insumos importados que ficam mais caros. Esse patamar de R$ 5,50 não é ótimo, mas é melhor do que projeções anteriores e do que patamares que já experienciamos. Acredito que devemos ficar um pouco abaixo disso na maior parte do ano – orbitando mais os R$ 5,30, mas é preciso ter alerta: o Focus também usa isso para pressionar. O dólar sobe se começam a apostar contra o Brasil, como fizeram no fim de 2024. Ele é um termômetro das expectativas do mercado financeiro. Claro, tudo depende de não acontecer nada muito extravagante, pois temos Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, o que deixa tudo instável econômica, política e geopoliticamente, mas, se não houver nada muito fora da trajetória, acredito que o dólar deve ficar mais no patamar dos R$ 5,30 do que dos R$ 5,50 projetados pelo Focus.
Para concluir nossa conversa, como você avalia a perspectiva do acordo do Mercosul? Você acha que isso vai afetar concretamente os mercados e a nossa relação com outros países?
No curto prazo, o acordo Mercosul-União Europeia é mais político do que econômico. Vejo como uma retomada do multilateralismo num momento em que ele está sendo atacado, principalmente no contexto de Donald Trump, que quer o unilateralismo, atacando instituições multilaterais e usando o cenário econômico para fazer pressão geopolítica – colocando tarifas com arbitrariedade para ter negociações desiguais. O acordo é uma resposta de multilateralismo a esse contexto. Os impactos econômicos virão no médio e longo prazo, porque a implementação será gradual; os setores precisam se organizar para a redução tarifária. O que precisamos observar no Brasil é não virar uma “fazendona” – exportar só commodity e importar produto com valor agregado, exportar café para importar Nescafé, por exemplo. Precisamos de políticas públicas para fomentar a indústria e proteger a agricultura familiar e os pequenos produtores, para não ficarem vulneráveis com a queda de tarifas em queijos e vinhos. Sem isso, o acordo vai favorecer apenas o agroexportador de grande escala, enquanto importamos produtos industrializados com maior valor agregado, fica desigual, a transição gradual das tarifas permite que se tomem essas soluções. Do lado europeu, há resistência de alguns países e produtores – os agricultores franceses, por exemplo, têm receio porque somos mais competitivos na produção de commodities. A barreira tarifária atual os protege, foi isso que travou a negociação antes. O presidente da França votou contra justamente para não perder esse apoio, já a Alemanha foi a favor porque tem produção industrial e exporta mais. Cada lado pensa no seu lado. Para os dois lados, haverá coisas positivas, mas é preciso olhar a desigualdade na produção e no valor agregado. No curto prazo, o acordo deixa a mensagem do multilateralismo num momento em que ele está tão atacado – e olha que em menos de dois meses de 2026 já vimos ataques demais.



