Em entrevista, Luiz Antônio Simas analisa o carnaval como reconstrução da coletividade, critica o branqueamento das escolas de samba e defende os sambas-enredo como instrumento pedagógico

“O tempo do trabalho domestica os corpos. O carnaval é contraponto”, afirma Luiz Antônio Simas
Foto: Michelle Beff/Divulgação

“O carnaval restaura a ideia da coletividade”. Luiz Antônio Simas parte dessa afirmação para situar a festa, que já movimenta os foliões – brasileiros e turistas -, no tempo presente. Em uma sociedade de relações mediadas por aplicativos, pelo ritmo de produção e pela exposição constante nas redes, o autor de livros como “O corpo encantado das ruas” (Ed. Record), identifica no carnaval uma instância rara de resistência e reconstrução do comum.

Não como resistência romântica, mas como fenômeno histórico. “A festa em geral é uma instância de reconstrução do sentido coletivo de vida, pois restaura a ideia da coletividade”, afirma Simas. “Em um mundo em que o tempo do trabalho domestica os corpos, o carnaval é um contraponto poderoso.”

Professor, historiador, escritor e compositor, Simas constrói e dedica sua trajetória analisando as encruzilhadas culturais brasileiras, especialmente aquelas forjadas nas tradições afro-brasileiras. Ao falar de carnaval, fala de sociabilidade negra no pós-abolição, de disputa de narrativa, de memória e de conflito simbólico.

Nesta entrevista à Focus Brasil, o pesquisador analisa o impacto das redes sociais sobre o ato de brincar, critica o processo de branqueamento de escolas de samba e blocos e relaciona esse movimento ao avanço do racismo religioso. Também defende os sambas-enredo como documentos históricos e instrumentos pedagógicos capazes de ampliar a compreensão da formação brasileira.

Carnaval: disputa simbólica e transformação histórica

Para Simas, o carnaval sempre foi atravessado pelas dinâmicas do seu tempo. Se hoje as redes alteram a lógica da máscara e transformam a rua em vitrine, a festa mantém sua capacidade de reorganização cultural. Ele lembra que as escolas de samba surgem como instituições de construção de sociabilidades negras e que, mesmo impactadas por processos de mercantilização, seguem sendo espaços de produção de narrativa.

“O tempo do trabalho domestica os corpos. O carnaval é um contraponto poderoso”, afirma. Ao discutir o branqueamento das manifestações e o avanço do racismo religioso, ele chama atenção para o risco de esvaziamento de fundamentos ancestrais que estruturam essas práticas culturais. A seguir, a entrevista na íntegra.

Entrevista Luiz Antônio Simas

Desde o surgimento dos cordões e escolas de samba, o Carnaval vem perdendo sua característica de espaço público, cada vez mais monetizado. Contudo, o amor das pessoas pela festa e a participação se mantêm. Você acredita que o carnaval seja um tipo de rebeldia contra esse isolamento?

Eu não sei até que ponto a gente pode dizer que o carnaval é uma rebeldia contra um certo isolamento. Eu acho que a festa em geral, ao longo da história da humanidade, é uma instância de reconstrução do sentido coletivo de vida, pois restaura a ideia da coletividade. Em uma sociedade cada vez mais individualista, em um mundo em que o tempo do trabalho é o tempo do relógio, que, no fim das contas, domestica os corpos, o carnaval é um contraponto poderoso. Mas ao mesmo tempo é impactado por esse tipo de coisa.

Hoje as redes sociais estão alterando até, em algum sentido, fundamentos do ato de brincar o Carnaval, que se caracterizava como uma festa da máscara, do velamento, a rua escondia mais do que revelava. Hoje você já vê um impacto das redes sociais. O sujeito vai para o carnaval para revelar onde está a fantasia e torna o ambiente carnavalesco  instagramável.

Não sei onde é que isso vai parar, até porque o carnaval é dinâmico, tem essa capacidade de dialogar com o seu tempo. E não tenho dúvida de que a festa restaura fundamentos ligados à coletividade, mas acho também que tem sido muito impactada pelas dinâmicas, enfim, que caracterizam as relações sociais nesse século XXI.

Desde que surgiu o samba tem sua importância reduzida por ser popular em comparação à música erudita, até com o rock. Você acredita que o movimento de descolonização que vivemos hoje foi capaz de reverter essa lógica? Ainda tem sentido falar hoje em cultura popular e erudita?

Eu não trabalho com essa distinção entre cultura popular e cultura erudita. A rigor, penso que há uma circularidade cultural entre o popular e o erudito. São fluxos, as culturas se influenciam. Beethoven compôs o Allegro da Nona Sinfonia baseado em cantos de camponeses, de trabalhadores. Villa-Lobos foi um compositor que viveu na encruzilhada entre o erudito e o popular.

Então, não acredito nessas distinções entre erudito e popular. Eu gosto muito de trabalhar com o conceito de culturas que bebem na fonte da tradição, mas com o sentido de interagir com o contemporâneo, com o presente, as culturas ancestrais, as  culturas de festa.

Eu não sei se a gente vive um movimento de descolonização, se isso não é restrito a um certo debate acadêmico. Eu acho que vivemos um movimento de construção de outras narrativas a respeito da história do Brasil, de valorização de outros protagonismos, outras vozes, de pluralidade e alteridade. Mas eu não usaria o conceito de descolonização, até porque o debate do descolonial, contra-colonial, pós-colonial é passado legitimamente em ambientes mais acadêmicos.

O carnaval tem dinâmicas que são muito próprias. Sobretudo em relação às escolas de samba, vivemos uma fase muito interessante em relação aos enredos, com a perspectiva que gosto de chamar de alargamento das narrativas. Em relação às escolas de samba, diria que viveram um momento muito ruim no início do século XXI, nos anos 2000, 2010, curiosamente quando o dinheiro fluiu de uma forma muito mais efetiva para elas. 

No fim das contas a gente teve uma leva de enredos patrocinados, muitos de qualidade duvidosa, eram marcas, cidades, enfim, querendo usar o carnaval como uma alavanca para fazer uma propaganda de marca.

Quando o Brasil mergulhou em uma situação econômica mais delicada, a crise das commodities, a crise política com o impeachment da presidenta Dilma, o golpe que a derrubou, de certa maneira as escolas de samba sentiram os efeitos dessa crise e tiveram que se reinventar. Essa reinvenção passa, inclusive, por enredos de uma densidade cultural muito maior, mais ampla, que propõem  certas percepções da história que rompem com narrativas dominantes.

O “branqueamento” dos blocos, escolas de samba e maracatus retira do carnaval seu caráter transgressor?

Eu acho importante a gente lembrar que o carnaval é plural, na verdade é uma data marcada por uma pluralidade de festas, as mais diferentes, e elas muitas vezes são conflituosas, tensionadas. Penso que esse processo de branqueamento, no fim das contas, é um contraponto muito nocivo aos fundamentos de determinados elementos de culturas afro-brasileiras que dialogam com uma ideia de ancestralidade que se expressa inclusive na cor da pele.

De certa forma, são processos que retiram dessas manifestações da cultura brasileira de fundamentos africanos o seu caráter ancestral e visceral. E isso tem muita relação, inclusive, com o avanço do racismo religioso no Brasil, que ataca fundamentos da cultura brasileira, sobretudo os não brancos. Então, é uma questão que tem de ser vista com o maior cuidado e é necessário que esse debate seja instaurado.

Na história recente, os sambas-enredos que expressam as religiões de matriz africana no Brasil têm sido mais frequentes. O senhor acredita que eles se tornam repetitivos? Isso pode ser um reflexo da expansão das igrejas evangélicas e do racismo religioso?

As escolas de samba são instituições que constroem sociabilidades negras no pós abolição. Portanto, é notável a escola de samba se voltar para os fundamentos da cultura afrobrasileira, absolutamente fundamental. E de certa maneira faz parte de um embate que envolve o avanço de certas designações evangélicas que operam no campo do racismo religioso.

O Rio de Janeiro, por exemplo, teve um prefeito, o bispo Marcelo Crivella, que não via problema nenhum em publicamente declarar que viveu dez anos na África fazendo exorcismo e que desqualificava o carnaval a partir de uma operação simbólica de contraponto entre pecado e salvação, Bem e mal, divinal e demoníaco.

E a questão dos enredos afro repetitivos, eu gosto muito de uma colocação que tem sido feita pelo meu parceiro de livro, meu amigo e mestre Nei Lopes. A pluralidade da cultura afro é tamanha que isso pode se expressar em mais diversidade de enredos.

A gente tem que fazer enredos ligados à religiosidade afro. É muito significativo, mas acho a cultura africana vai muito além disso. Então, existem tantas temáticas vinculadas às culturas africanas e à maneira como elas se redefinem na diáspora, personagens, histórias, rebeliões, práticas religiosas, filosofias, tecnologias, é muito amplo.

Há um campo ainda que precisa ser muito explorado, o das africanidades e seus impactos na formação da cultura brasileira.

O senhor tem um curso que propõe entender a história do Brasil a partir de uma leitura do Carnaval. Pode explicar um pouco dessa metodologia e como propõe essa leitura? 

Quando eu trabalho o carnaval em cursos, é fundamentado, evidentemente, em pesquisas. Procuro primeiro tentar entender o carnaval como uma via de mão dupla. Ele é altamente impactado pela conjuntura, pelo contexto da história do Brasil, da cultura, das relações sociais. E, ao mesmo tempo, ele é um elemento que impacta o panorama socioeconômico e cultural brasileiro.

Gosto de trabalhar com o conceito de carnaval e carnavalização, mostrando que são coisas um pouco distintas. Aí seria um debate mais complexo. E o cerne desse curso é pensar o carnaval a partir de pluralidade, alteridade, diversidade. Não existe um carnaval, existem dezenas de carnavais, e isso tem implicações muito sérias em relação às cidades,  regiões e culturas. É essa pluralidade carnavalesca que me interessa.

Um dos grandes desafios no Brasil é o ensino de história afro-brasileira nas escolas. Embora seja uma lei em vigor desde 2003, ainda falta formação para os professores e material didático suficiente. O senhor acredita que os sambas enredo poderiam ser usados nessa tarefa?

O samba de enredo é um documento da história e tem que ser usado, sim, como uma ferramenta didático-pedagógica de excelência. É importante lembrar que a escola de samba muitas vezes atuou como instituição de vanguarda na divulgação do conhecimento. Personagens como o Zumbi dos Palmares chegam primeiro às avenidas do que aos livros didáticos.

Quando o Salgueiro desfilou com o Quilombo dos Palmares, em 1960, o quilombo aparecia de uma maneira muito superficial nos livros didáticos. Quando a Unidos do Viradouro desfilou com Tereza de Benguela e o Quilombo do Quariterê, a Rainha Negra do Pantanal, essa era uma história que estava fora de livros didáticos do Sudeste, por exemplo, de regiões mais ao Nordeste ou Norte. Viradouro colocou Tereza de Benguela na boca de cena e muita gente teve o primeiro contato com o quilombo do Quariterê pelo desfile da escola de samba.

Então, por que não levar a escola de samba para a sala de aula? Levar o enredo para sala de aula, o desfile, como um documento efetivo da história? Ou tentar entender a escola de samba a partir de percepções que envolvem narrativas? Isso é absolutamente fundamental. Eu diria que é um instrumento pedagógico de excelência e de alto poder. Eu, por exemplo, trabalho muito com o samba e acho que é um manancial ainda enorme a ser explorado nesse aspecto.