Por Gerson Almeida*
A plateia da Conservative Political Action Conference (CPAC), realizada no Texas (março de 2026), estava formada por expoentes da extrema direita americana e sabujos de diferentes países, que atuam como a guarda pretoriana dos interesses do grande capital e emulam os movimentos protofascistas no mundo.
Nos últimos anos, a CPAC vem se constituindo em uma espécie de internacional da extrema direita, cujo principal líder é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Encontros da CPAC já foram realizados na Argentina, Austrália, Hungria e no Brasil.
Em seu discurso, Flávio Bolsonaro subiu ao palco e anunciou que o objetivo de sua candidatura à presidência é colocar o país a serviço dos interesses estratégicos dos EUA, declarando: “o Brasil é a solução da América para quebrar a dependência da China em minerais críticos”, tornando claro o seu compromisso de defender a soberania nacional dos Estados Unidos, e não do Brasil.
Para entender a dimensão da traição que isso representa, o Brasil possui a segunda maior reserva conhecida no mundo de terras raras, consideradas o “ouro do século XXI”. Elas são essenciais para qualquer projeto de desenvolvimento tecnológico: turbinas eólicas, carros elétricos, smartphones, equipamentos aeroespaciais, indústria de defesa etc.
Como lacaio assumido, Flávio Bolsonaro defende que essas riquezas devem promover o desenvolvimento tecnológico e a segurança dos norte-americanos, relegando o Brasil à condição extrativista.
Em nenhum outro momento da nossa história tivemos um grupo político que atuasse de forma tão despudorada para colocar o Brasil de joelhos diante de interesses estrangeiros.
A escolha por Silvério dos Reis
A postura de Flávio Bolsonaro reedita os momentos mais sombrios da nossa história. Ela remete diretamente à figura de Silvério dos Reis, o traidor da Inconfidência Mineira, que delatou seus companheiros à Coroa Portuguesa em busca de perdão de dívidas e vantagens pessoais, agindo de forma sórdida contra o projeto de independência e desenvolvimento do Brasil. Entre o Brasil independente, livre e soberano, a extrema direita escolheu o delator e preferiu se ajoelhar para servir às potências estrangeiras.
A postura lacaia de Flávio Bolsonaro não é um fato isolado. Essa escalada da pulsão vassala já demonstrou seu poder destrutivo durante o governo de Bolsonaro pai, que desmontou alguns dos pilares fundamentais da nossa economia, como as refinarias de petróleo, as fábricas de fertilizantes e a Eletrobras.
Enquanto o Brasil, por meio do presidente Lula, vem construindo políticas de soberania sobre as nossas riquezas naturais, com o objetivo de utilizar essas reservas para alavancar o desenvolvimento de tecnologias de ponta e uma industrialização soberana — para a produção de semicondutores e refino em solo nacional, entre outros —, que podem incrementar bilhões ao PIB nacional e à independência tecnológica, temos o herdeiro do bolsonarismo agindo como um agente facilitador para que a potência americana extraia, leve e processe nossa riqueza. Uma vergonhosa reedição do roteiro da exploração colonial que a estirpe de Silvério dos Reis quer perpetuar.
Afirmar que o Brasil é a “solução” para os EUA é confessar um projeto de país em permanente submissão aos impérios. Na edição anterior da CPAC, o discurso de Jack Posobiec, conhecido militante de extrema direita, deixou claro que as investidas contra a democracia, tal como feitas no Brasil em 8 de janeiro, fazem parte do projeto da extrema direita: “Bem-vindos ao fim da democracia. Estamos aqui para derrubá-la completamente”, disse ele. “Não chegamos lá em 6 de janeiro, mas nos esforçaremos para nos livrar dela.” (NBC News, 23/02/24).
Diferentemente de anos anteriores, a partir dessa edição, a CPAC passou a acolher vários neonazistas que obtiveram crachás oficiais do evento e circularam ostentando seus símbolos nas salas de reuniões, algo que até então não era admitido.
Traição à própria base política
O Brasil consolidou sua posição como um dos principais produtores e exportadores de alimentos e possui “capacidade produtiva, inovação e sustentabilidade para seguir como um dos principais fornecedores de alimentos do mundo”, de acordo com o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro. A agricultura brasileira — o agronegócio e a agricultura familiar — desempenha papel estratégico na segurança alimentar global e na economia nacional, tendo exportado em 2025 o montante de US$ 169,2 bilhões, cerca de 48,5% de tudo o que o país exportou no período, enquanto a agricultura familiar produz cerca de 75% dos alimentos consumidos pelos brasileiros e emprega a maioria da mão de obra no campo.
Apesar de ambas serem fundamentais para a segurança alimentar no Brasil e no mundo, a falta de compromisso da extrema direita com a soberania nacional tornou o país mais dependente de insumos estrangeiros. Uma vulnerabilidade agravada deliberadamente no governo Bolsonaro, que obrigou a venda, pela Petrobras, de refinarias estratégicas, como a RLAM (Bahia) e a REMAN (Amazonas), e fechou unidades de fertilizantes nitrogenados (Fafens) no Paraná, Bahia e Sergipe.
Essas políticas entreguistas deixam o país e os produtores à mercê das oscilações de guerras, crises externas e tentativas de interferência estrangeira. Isso encarece os fertilizantes importados, sem garantia de fornecimento em volume adequado e no prazo necessário para o plantio. Trata-se de uma demonstração de que, ao invés de trazer eficiência, a privatização de setores básicos gera dependência, insegurança de abastecimento e custos elevados.
Essa lógica de entrega do patrimônio público e descompromisso com a soberania nacional tem sido uma obsessão — bem remunerada — da extrema direita. A privatização da Eletrobras, por exemplo, retirou do Estado brasileiro a capacidade de planejar e controlar o custo da energia, um insumo que atravessa toda a cadeia produtiva e o bolso de cada cidadão.
Soberania nacional não é uma palavra sem sentido. É comida no prato, é luz para todos, é utilizar nossas riquezas naturais em benefício dos brasileiros. Flávio Bolsonaro é um Silvério dos Reis turbinado, que trai a promessa de um país independente e reduz a nação a um balcão de negócios, onde o bem-estar do povo brasileiro é apenas mais uma mercadoria em liquidação. A próxima eleição será uma disputa entre os brasileiros e seus inimigos.
Gerson Almeida é mestre em Sociologia. Foi vereador, secretário de Meio Ambiente de Porto Alegre e secretário nacional de Articulação Social no governo Lula 2.
