O uso da Inteligência Artificial Generativa cresce cada dia mais, em diferentes esferas, e é colocado como um caminho sem volta tanto para o uso profissional quanto no cotidiano das pessoas. Neste sentido, os brasileiros estão acima da média na relação com essas plataformas. 

De acordo com uma pesquisa feita pela Ipsos em parceria com o Google, em 2024, 54% dos brasileiros responderam utilizar com frequência ferramentas de IA generativa, frente aos 48% da média da população mundial. A taxa de aprovação desses instrumentos também é considerada alta por aqui, com 65% dos brasileiros afirmando considerar a tecnologia “promissora”, taxa maior do que os 57% da média global.

A urgência em dialogar com as demandas atuais desse setor é apenas um dos fatores que trouxeram à tona a IARAA, Inteligência Artificial voltada às questões da agroecologia. Outro ponto considerado central para seu desenvolvimento é a necessidade de alternativas de soberania em relação a esse tipo de tecnologia, que está inserido em um setor dominado 90% por três bilionários. 

A recém-lançada IARAA foi desenvolvida a partir de uma parceria entre o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Marcha Mundial das Mulheres e Associação Internacional para a Cooperação Popular (Baobab). 

De acordo com os idealizadores, a plataforma foi pensada para responder perguntas sobre manejo de solo, controle agroecológico de pragas, restauração ecológica, organização produtiva e formação política, sem substituir o trabalho de assistência técnica ou os saberes construídos nos territórios. O público-alvo prioritário são agricultores, estudantes, integrantes de organizações sociais do campo e da cidade, além de interessados no tema. 

Militante da Marcha Mundial de Mulheres, Natália Lobo conta que a ideia da ferramenta surgiu a partir de um trabalho de brigada do MST na China, que levou militantes brasileiros a conhecerem fábricas chinesas de bioinsumos e maquinário, com o objetivo inicial de estabelecer parcerias nessa área. 

“Os companheiros que estavam lá perceberam a necessidade de um acúmulo sobre IA a partir do nosso território inspirados no modelo chinês, com nossas realidades, assim surgiu um curso sobre soberania digital com a nossa militância, com os militantes no protagonismo não só do debate, mas também do desenvolvimento da tecnologia”, lembra Lobo.

Demanda no campo 

A militante explica que há uma demanda não atendida de assistência técnica rural para pequenos produtores que queiram iniciar práticas agroecológicas, com redução no uso de agrotóxicos, conservação do solo, estímulo à biodiversidade e valorização da cultura e dos modos de vida das comunidades tradicionais. 

Para atender a essa lacuna e trazer uma visão política e técnica do que os movimentos populares compreendem como agroecologia, a ferramenta possui um banco de dados, base de conhecimento da IARAA, formado a partir de documentos da academia e que são utilizados no processos formativos das organizações. 

Dessa forma, o usuário pode navegar em três modos de pesquisa: Semeadura (respostas mais curtas e diretas), Mutirão (aprofundamento) e Quintal Produtivo (com relatórios mais extensos, uso voltado à pesquisa). 

Natália Lobo explica que todo o conteúdo que aparece na IARAA têm bem visíveis as fontes que foram utilizadas, o que, além de manter a transparência, ainda faz com que as pessoas também busquem ativamente outras vivências para além das telas. “Estimulamos que os agricultores busquem os órgãos responsáveis e também as organizações sociais para que façam seus próprios mutirões e que levem o que aprenderam com a ferramenta para o mundo, para o coletivo”, diz. 

Sul Global

Apesar de bastante discutido na sociedade, o uso das tecnologias, em especial de Inteligência Artificial, ainda é um conceito pouco explorado no cruzamento com os conceitos debatidos no campo político da esquerda. 

“Acredito que esse é um ponto ainda bastante desigual na esquerda em diferentes países. Na China, por exemplo, é muito difundida a ideia de que a tecnologia tem que estar à serviço do povo, do nosso projeto político”, opina Lobo. E completa: “aqui ainda somos pautados por uma visão do Norte Global, em que a tecnologia é inimiga, é desenvolvida para ser contra os trabalhadores, porque, de fato, essa é a nossa realidade concreta, mas é preciso dizer que isso só ocorre porque esse é o modelo no qual estamos inseridos, o modelo das big techs”.    

Após o lançamento pioneiro da IARAA, a militante da Marcha Mundial de Mulheres afirma que existe a vontade de criar ferramentas com outros escopos, para que a militância possa se organizar a partir de outros temas, mas que ainda há limites na capacidade computacional atual. Além do Brasil, a Baobab já articula uma experiência semelhante em Gana, com foco na produção camponesa de cacau.