Quando o português chegou
debaixo duma bruta chuva
vestiu o índio
que pena!
fosse uma manhã de sol
o índio tinha despido o português
Entre os feitos da geração modernista figura uma redescoberta do Brasil. Segundo confessa Oswald de Andrade, a sua ocorreu na Place Clichy, em Paris. Essa foi a geração que, além de revolucionar as letras e as artes, procurou mapear o país e sua herança. Contam-se entre as tarefas que levou a cabo uma jornada a Minas Gerais, para conhecer o barroco mineiro, e a excursão de Mário de Andrade à Amazônia, relatada em O turista aprendiz.
Oswald seria ainda o criador e teorizador do movimento antropofágico (1928), que propunha uma relação muito especial com o colonizador, através da devoração dele. O manifesto do movimento é atrevidamente assinado e datado como do “Ano 374 da deglutição do bispo Sardinha”, alçando um evento canibal estudado nos livros escolares a data de fundação da nacionalidade. A redescoberta implicou numa volta às páginas dos cronistas e viajantes, nossos primeiros historiadores, leitura que deixou sinais na obra de muitos deles, como em Retrato do Brasil de Paulo Prado, em Macunaíma de Mário de Andrade e na poesia de Oswald. Integra Pau Brasil (1924) um ciclo de pequenos poemas, intitulado “História do Brasil”, efetuando recortes naquelas páginas, aproveitando as delícias de sua linguagem e a cândida percepção dos portentos do Novo Mundo, desde a nudez das índias até o improvável bicho-preguiça.
O poema “Erro de português”, de 1925, pertence a um segundo livro, intitulado Primeiro caderno de poesia do aluno Oswald de Andrade (1927). Nele, a aparente espontaneidade coloquial mal encobre a sofisticação da fatura. Expõe aos olhos do leitor, com notável economia de meios, o confronto entre duas culturas, expresso na oposição entre os verbos vestir/despir. Assim, ironicamente, atribui o poder do colonizador de oprimir o colonizado apenas ao clima – que aliás era tema do grande debate racial que assinalou a época. As raças inferiores ou misturadas em nossa formação seriam responsáveis pelo atraso, ou também o clima tropical? Era coincidência que todos os países brancos e ricos ficassem no hemisfério norte, ou o frio espicaçava a operosidade? A notar ainda o feliz jogo do duplo sentido mobilizado no poema. Primeiro, nas dimensões concreta e abstrata da palavra “pena”, exploradas com perícia. Depois, o clichê do significado corrente do título – em que “português” se refere à língua –, ao ser deslocado para pessoas, se metamorfoseia em amplo e ominoso comentário histórico.
