Devo comer esse bife mal passado
tentando esquecer que vai me engordar
o colesterol ruim
a vaca louca
os triglicerídeos
a vaca louca
que pode ter cisticercos
a vaca louca
o coliforme 157
ou ainda
a vaca louca.

Devo mastigar essa alface sem pensar nas planárias
beber esta água sem sentir o vibrião colérico na garganta.

Devo ignorar este mosquito que me morde
– com listrinhas na bunda
possível portador da dengue tipo 3
que pode ser mais grave para quem já teve a 2 ou a 1.

Devo inspirar sem sentir o gás carbônico
piorando o efeito estufa.

(Fábio Rocha, Corte, 2004)

Fábio Rocha, carioca nascido em 1976, estreou com o livro Corte (2004), do qual consta o poema selecionado para figurar nesta edição. Destaque-se sua veia satírica, ao comentar acidamente a paranoia moderna que nos assola por todos os lados, infernizando nossas mais frívolas ingestões de alimentos, nosso sono, nosso respirar enfim. Lucidamente, não protesta nem põe em dúvida as informações que recebemos, mas aceita todas as precauções, conselhos e prevenções, impregnando nossas vidas de um terror constante. Sabe transformar em poesia nossos mais cotidianos pesadelos, quase clandestinos de tão íntimos, criando um poema sardônico e contemporâneo.