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Com Trump, a nova ordem internacional está inaugurada: poder militar e divisão do mundo em esferas de influência

“O México cintila diante dos nossos olhos. A única coisa que esperamos é ser donos do mundo” (John Adams, 1804).

“Não está longe o dia em que três bandeiras de estrelas e tiras assinalarão em lugares equidistantes a extensão de nosso território: uma no Polo Norte, outra no Canal do Panamá e a terceira no Polo Sul. Todo o hemisfério será nosso de fato, pois em virtude de nossa superioridade racial já é nosso moralmente”. (Willian Howard Taft, 1912.) [1]

“Sob nossa nova estratégia de segurança nacional, o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado.” (Donald Trump, 04/01/2026)

Ameaças, sabotagens, atos de pirataria, ataque e sequestro do presidente da República. Parece o roteiro de um filme sobre um grupo de bandoleiros, mas são os acontecimentos na Venezuela nos últimos meses, plena terceira década do século XXI.

Impossível ler as notícias sobre os atos da administração Trump sem recordar o infame Willian Walker, um norte-americano que, como conta Jorge Abelardo Ramos, chegou à Nicarágua nos anos 1850 “com 55 foragidos: a ‘falange norte-americana dos imortais’. Seu lema era Five or none! , isto é, ‘cinco ou nenhuma’. Não se tratava de mulheres, disse o historiador Ricardo Gallardo, mas de repúblicas. O último dos flibusteiros desejava a posse de toda a América Central. Constituiu-se no flagelo do istmo. Propunha-se a fazer ‘de cada povo um túmulo e  de cada marcha  uma hecatombe’”[2]. Suas ações incluíam saques, assassinatos, chantagem. Tinha a seu dispor armas modernas  para a época e novos recrutas sempre que necessário, tudo com o apoio do governo dos EUA. Dentre as ações de Willian Walker, quatro decretos que expediu enquanto dominou a Nicarágua dão o tom de seu “programa”: “No primeiro, decretou um empréstimo, oferecendo em pagamento as terras da Nicarágua; no segundo, decretou o confisco dos bens dos nicaraguenses; no terceiro, decretou o inglês como idioma oficial e, no quarto, estabeleceu a escravidão” [3]. Walker acabou fuzilado em Honduras em 1860, numa “rara vitória da justiça”. 

Guardadas as devidas distâncias de tempo e lugar, há paralelos entre o agir dos protegidos do governo dos EUA na Mesoamérica do século XIX com a mais recente aplicação da nova “Estratégia de Segurança Nacional” do governo de Donald Trump. Como é de se destacar, a ação do atual governo dos EUA não inaugura o cerco à Venezuela: com o apoio da CIA, o país sofreu uma tentativa de golpe de Estado em 2002, com participação de civis e militares, que incluiu o sequestro do presidente da República (Hugo Chávez); após o referendo que confirmou Chávez no poder, o país não teve sossego: diversos momentos de agitação civil com episódios de extrema violência marcaram todos os pleitos eleitorais, sempre finalizados sem o reconhecimento da derrota por parte da oposição, com respaldo dos EUA; o país já teve suas reservas em ouro no banco da Inglaterra confiscadas; sua economia sofre com diversos bloqueios, suas autoridades são acusadas livremente por jornalistas, políticos e “influenciadores” sem nenhum compromisso com a verdade de envolvimento com narcotráfico… depois das últimas eleições, renovaram-se as pressões externas para que o presidente eleito deixe o poder e as restrições econômicas foram novamente intensificadas. 

Muito do que já aconteceu, em especial os “métodos” dos guarimbeiros ligados à ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, a magnata Maria Corina Machado, tem suas semelhanças com os métodos dos flibusteiros de Willian Walker. A “falange americana dos imortais” incendiava cidades inteiras a fim de impor a rendição aos governos. Os Estados Unidos da América arruínam economias inteiras a fim de impor a rendição a governos “hostis” e seus aliados nos países latino-americanos não hesitam em cometer assassinatos, linchamentos e outros atos de terror a fim de desestabilizar governos.  

Mas as ações perpetradas entre dezembro de 2025 e este último sábado, dia 03 de janeiro de 2026, são sem precedentes até mesmo para os EUA – se deixarmos nossa lente estacionada na América do Sul, pois no Panamá dos anos 1980 temos o precedente do sequestro do presidente Noriega, acusado e condenado por tráfico de drogas em solo estadunidense, e a imposição de um governo “cliente” ao país. Antes do ataque direto a Caracas, organizado com o objetivo de sequestrar o presidente, os EUA já vinham impondo à Venezuela uma série de ameaças e ações de pirataria, como o roubo de três navios petroleiros. Por si só, essa ação já poderia ser considerada fora de qualquer esquema “normal” de relação entre Estados dentro do sistema internacional do pós segunda-guerra – este que foi criado com grandes esforços dos próprios EUA. 

A Carta da ONU, que Donald Trump faz questão de ignorar, considera ilegal qualquer ato de guerra que não seja motivado pela necessidade de autodefesa. Essa carta, tem sido necessário recordar, foi negociada entre as potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial antes da adesão dos demais países. Dali para frente, foi-se construindo um sistema complexo com regras e instituições, com o objetivo de evitar novos conflitos armados. Se por um lado é verdade que os EUA nunca cumpriram estritamente com o que foi acordado, realizando ações militares para “mudança de regime” em 18 países com o argumento de “impor” a democracia liberal – algo que jamais poderia funcionar –, causando a destruição do tecido social de todas as sociedades atacadas, por outro lado é a primeira vez que estamos diante de um caso em que o presidente dos EUA sequer deu-se ao trabalho de inventar uma história cobertura, algo como “eles detém armas de destruição em massa”, como vimos em relação ao Iraque e o Irã, ou “estão promovendo um genocídio e usando armas químicas contra civis”, como se dizia da Síria. A história mostrou que as armas de destruição em massa, as armas químicas contra civis e toda sorte de barbáries, incluindo o genocídio do povo palestino, vieram pela mão dos Estados Unidos da América.

Enquanto isso, a Nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, construída pelo segundo governo Trump diz, textualmente, que o  “Presidente Trump fixou seu legado como ‘presidente da paz’” (pode rir, leitor, merecemos um momento de descontração). Mais adiante o documento acrescenta alguns “poréns” para o pacifismo, quando admite que, com relação ao princípio da “não intervenção”, “para um país cujos interesses são tão numerosos e diversos como o nosso, a rígida adesão ao não-intervencionismo não é possível. Ao invés, essa predisposição deve fixar um padrão muito alto acerca do que constitui uma intervenção justificada”.

O presidente Donald Trump gesticula para a multidão após discursar na Reunião de Membros Republicanos da Câmara dos Representantes, na terça-feira, 6 de janeiro de 2026, no Centro de Artes Cênicas Donald J. Trump – John F. Kennedy, em Washington, D.C. (Foto oficial da Casa Branca por Daniel Torok)

Qual seria, então, a justificativa “elevada” que fez com que o “presidente da paz” aprovasse atos de pirataria, guerra e sequestro contra a Venezuela? John Mearsheimer, teórico das relações internacionais que foi oficial das Forças Armadas dos EUA antes de dedicar-se à teoria política e que não pode ser, de forma alguma, entendido como um apoiador do chavismo ou um “idealista”, disse em diversas ocasiões (por exemplo aqui e aqui) que a Venezuela não representa uma ameaça aos Estados Unidos. Vejamos seu argumento: a Venezuela não possui armas de destruição em massa; não está não está formando uma aliança militar; não busca expandir suas fronteiras.  Qual seria, diante disso, a justificativa para o ataque?

Na própria Estratégia, temos a pista. A administração Trump assume que não é possível manter a estratégia de domínio para “todo o globo”, como foi assumido pelos governos anteriores. Há um escalonamento e a “política hemisférica” volta a ser a prioridade. Ainda assim, o documento fala em cooperação e respeito às diferenças culturais:

“Realismo Flexível – A política dos EUA será realista quanto ao que é possível e desejável buscar em suas relações com outras nações. Buscamos boas relações e relações comerciais pacíficas com as nações do mundo, sem impor a elas mudanças democráticas ou outras mudanças sociais que difiram amplamente de suas tradições e histórias. Reconhecemos e afirmamos que não há nada de inconsistente ou hipócrita em agir de acordo com essa avaliação realista ou em manter boas relações com países cujos sistemas de governo e sociedades diferem dos nossos, mesmo enquanto incentivamos aliados com ideias semelhantes a defenderem nossas normas compartilhadas, promovendo assim nossos interesses

Aparentemente  essa parte do documento tem outro endereço, que não as Américas: está aí para contemplar a amizade eterna entre os Estados Unidos e as monarquias reacionárias da Arábia Saudita, do Catar e do Bahrein. Não serve às Américas, espaço prioritário da projeção do poder dos EUA. Nas Américas, a conversa é outra:

Hemisfério Ocidental: O Corolário Trump à Doutrina Monroe. Após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nosso território e nosso acesso a regiões-chave em toda a região. Negaremos a concorrentes de fora do Hemisfério a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério. Este ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe é uma restauração sensata e eficaz do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança dos Estados Unidos.”

O que significa isso? Logo adiante, o documento aponta para o problema dos “potências extra-hemisféricas” que, por falta de empenho dos EUA nas últimas décadas, ocuparam amplos espaços nas economias dos países da região. O documento admite que os países do continente fazem negócios com a China não necessariamente por “alinhamento ideológico”, mas porque os contratos são vantajosos. A Estratégia aponta à necessidade de se persuadir os governos a enxergar desvantagens (como “roubo de informações”, por exemplo) ou seja, é preciso reverter, ao máximo, a expansão dos negócios chineses no continente. 

Junte-se a isso o que diz a Estratégia acerca das prioridades em termos de recursos naturais:

“Garantir o acesso a cadeias de suprimentos e materiais críticos – Como Alexander Hamilton argumentou nos primórdios de nossa república, os Estados Unidos jamais devem depender de qualquer potência externa para obter componentes essenciais – de matérias-primas a peças e produtos acabados – necessários à defesa ou à economia do país. Devemos restabelecer nosso acesso independente e confiável aos bens de que precisamos para nos defender e preservar nosso modo de vida. Isso exigirá a expansão do acesso americano a minerais e materiais críticos, ao mesmo tempo em que combatemos práticas econômicas predatórias. Além disso, a Comunidade de Inteligência monitorará as principais cadeias de suprimentos e os avanços tecnológicos em todo o mundo para garantir que compreendamos e mitiguemos as vulnerabilidades e ameaças à segurança e à prosperidade americanas.”

E, mais adiante:

“Domínio Energético – Restaurar o domínio energético americano (em petróleo, gás, carvão e energia nuclear) e repatriar os principais componentes energéticos necessários é uma prioridade estratégica máxima. Energia barata e abundante criará empregos bem remunerados nos Estados Unidos, reduzirá os custos para consumidores e empresas americanas, impulsionará a reindustrialização e ajudará a manter nossa vantagem em tecnologias de ponta, como a inteligência artificial. Expandir nossas exportações líquidas de energia também fortalecerá os laços com os aliados, ao mesmo tempo que reduzirá a influência de adversários, protegerá nossa capacidade de defender nosso território e – quando e onde necessário – nos permitirá projetar poder. Rejeitamos as ideologias desastrosas de ‘mudança climática’ e ‘emissões líquidas zero’ que tanto prejudicaram a Europa, ameaçam os Estados Unidos e subsidiam nossos adversários.”

Aqui encontramos a razão “justa”, do ponto de vista do imperialismo dos EUA repaginado por Trump para a intervenção na Venezuela. Como ficou claro na estratégia adotada na Venezuela, de sequestrar o líder principal e manter a “cadeia de comando” que já está no poder, sob ameaça permanente e chantagem, a ideia não é instaurar um regime de ocupação como o que se fez no Iraque e no Afeganistão (que terminou com as tropas dos EUA em fuga): trata-se de algo diferente do que os EUA vinham fazendo no Oriente Médio. 

Dois interesses principais estão em jogo: o domínio energético e a redução da presença econômica da China na região. A “promoção da democracia”, esse jargão já gasto do intervencionismo dos EUA, não passa de retórica, tão rebaixada que nem Donald Trump insiste muito em repisar. Marco Rubio, certamente o arquiteto principal da estratégia, sabe que a derrubada imediata do PSUV e a condução de direitistas derrotadas nos pleitos eleitorais passados desestruturaria rápida e completamente o tecido social venezuelano. Como o objetivo é garantir a apropriação dos suprimentos petrolíferos pelas empresas dos EUA e, ao mesmo tempo, tornar inviáveis os investimos chineses na região, o ideal é manter a institucionalidade do país funcionando em relativa calma, sob intensa chantagem.

Os EUA já mostraram que são capazes de sabotar as defesas da Venezuela, usando de infiltração, espionagem, guerra cibernética, sabotagem e capacidade militar infinitamente superior. Ao mesmo tempo, a capacidade de resistência em um conflito de longa duração, em terra, do povo da Venezuela, ajuda a explicar a estratégia adotada pelos EUA, de não repetir o que tentou fazer no Iraque. Ainda assim, o preço a pagar pelo governo interino de Delcy Rodriguez, caso não faça as concessões exigidas, pode ser alto demais para o povo venezuelano. A estratégia dos flibusteiros dos anos 1850 não era muito diferente: eles invadiam, estupravam, saqueavam e incendiavam cidades inteiras quando as elites locais recusavam ceder-lhes o poder. 

A “reação internacional” foi a já esperada por Trump: notas, declarações (algumas muito duras) e nada mais. O povo da Venezuela terá que resistir com suas próprias forças e terá perdas em suas riquezas no plano imediato. Ao menos o povo da Venezuela tem organização capaz de impor resistência. Nos demais países do continente, que não contam com as capacidades do povo venezuelano, quem irá desafiar o poder militar dos EUA? Com um único golpe, a administração Trump inaugurou um novo momento em suas relações com a América Latina: os governos, independentemente de sua orientação ideológica, buscarão formas de manter relações favoráveis aos interesses dos EUA, evitando serem alvos de sabotagens e agressões. 

A nova ordem internacional está inaugurada: poder militar e divisão do mundo em esferas de influência. Cada povo da América Latina pode contar apenas consigo mesmo. Não existe um poder externo que possa impedir os EUA de impor sua vontade, caberá aos povos organizarem sua resistência, tornando o “preço a pagar” pela interferência alto demais – lição dos venezuelanos, que mesmo atacados conseguem manter sua estrutura de poder.  Mais do que nunca, o imperativo da organização popular e da unidade latino-americana se impõe como uma necessidade. 

(*) Rita Coitinho é socióloga e doutora em Geografia, autora do livro “Entre Duas Américas – EUA ou América Latina?”, especialista em assuntos da integração latino-americana.

Notas:
1 – Ambas as citações estão em Báez, Fernando. A história da destruição cultural da América Latina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. Página 43.
2 – Ramos, Jorge Abelardo. História da Nação Latino-Americana. Florianópolis: Insular, 2014. Página 340.
3 – Idem, página 341.