Comissão aprova chamamento do governador de Minas, rejeita pedidos da oposição e avança na investigação das fraudes no consignado durante o governo Bolsonaro


A CPMI do INSS encerrou os trabalhos de 2025 aprovando a convocação do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, sócio da Zema Crédito, Financiamento e Investimento S.A., empresa que atuou no crédito consignado e no pagamento do BPC e do Auxílio Brasil durante a pandemia. Na reunião realizada em 4 de dezembro, também foram rejeitados os pedidos para ouvir Fábio Luís Lula da Silva e o advogado-geral da União, Jorge Messias, recém-indicado ao Supremo Tribunal Federal.

A análise dos 181 requerimentos expôs novamente a disputa sobre o escopo da comissão. O deputado Rogério Correia (PT-MG), autor do pedido de convocação de Zema, destacou que o governador ainda detém 16,41% das ações da financeira e lembrou que, em outubro de 2022, apenas 11 empresas — entre elas a Zema — foram autorizadas pelo governo Bolsonaro a operar consignado para beneficiários do BPC e do Auxílio Brasil.

A oposição viu seus principais requerimentos rejeitados. Por 19 votos a 12, caiu o pedido para convocar Fábio Luís Lula da Silva, defendido pelo senador Sergio Moro (União-PR). O líder do governo, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), desafiou os parlamentares a apresentarem provas concretas contra o filho do presidente.

Ao longo de toda a CPMI, a base governista buscou manter o foco na investigação das origens do esquema durante o governo Bolsonaro. Para Paulo Pimenta, coordenador da base, o objetivo da comissão é “investigar quem são os responsáveis por esse roubo bilionário contra aposentados, pensionistas e beneficiários”.

Deputado Rogério Correia autor do requerimento de convocação de Romeu Zema.
Foto:Waldemir Barreto/Agência Senado

Foco nas raízes do esquema

Na segunda parte da sessão, estava prevista a oitiva de Silas da Costa Vaz, da Conafer, que apresentou atestado médico e não compareceu. O segundo convocado, o empresário Américo Monte Júnior — investigado no núcleo identificado como “Golden Boys” — participou amparado por habeas corpus concedido pelo ministro Kassio Nunes Marques (STF) e permaneceu em silêncio. Segundo as investigações, ele teria movimentado valores que chegam a R$ 1 bilhão. O relator da CPMI, Alfredo Gaspar, lembrou que Américo recebeu auxílio emergencial em 2021. “O Brasil ainda é um país de oportunidades”, ironizou.

Parlamentares da base apresentaram documentos que apontam para o Decreto 10.537, de 28/10/2020, assinado por Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e Onyx Lorenzoni, como marco da expansão das fraudes. A transferência de competências da fiscalização da Dirben para a Dirat e a extinção, em 2022, da Divisão de Fiscalização (DAMB) são citadas como fatores que facilitaram o avanço do esquema.

Números da investigação

A CPMI, instalada em 20 de agosto de 2025, acumulou 29 reuniões, 639 documentos recebidos, mais de 250 GB de material analisado, 1.522 ofícios enviados e 2.841 requerimentos apresentados. Ao todo, 32 pessoas foram ouvidas. Quatro autos de prisão em flagrante foram expedidos, além de 30 pedidos de prisão preventiva, e 10 pessoas foram presas em operações da Polícia Federal após o início dos trabalhos.

O material inclui mais de 4.800 documentos oficiais examinados, 73 requerimentos de informação deferidos, 48 quebras de sigilo aprovadas e a identificação de 108 empresas suspeitas, com movimentações incompatíveis superiores a R$ 1,2 bilhão.

O presidente da CPMI senador Carlos Viana Foto: Agência Senado

Perspectivas para 2026

O presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), afirmou que solicitará ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a prorrogação da comissão além do prazo final previsto para 28 de março de 2026, e está buscando assinaturas para estender os trabalhos. A sessão aprovou novas quebras de sigilo telemático, fiscal e financeiro. Foi retirado de pauta o requerimento para convocar o ministro da Previdência, Wolney Queiroz, que será ouvido após o recesso.

No encerramento, o presidente da CPMI informou que passará por cirurgia para a retirada de um tumor no estômago. A comissão retorna em fevereiro com foco nos empréstimos consignados — ponto em que, segundo parlamentares, o rombo pode ser ainda maior do que o identificado nas fraudes associativas.