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Registra-me:
Sou árabe
Trabalho com meus companheiros de luta em uma pedreira
Tenho oito filhos
Arranco pedras
O pão, as roupas, os cadernos
E não venho mendigar em tua porta
E não me dobro
Diante das lajes de teu umbral
Acaso te irrito?

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Registra-me:
Sou árabe
Tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados
E da terra que cultivava
Com meus filhos
E não deixaste
Nem a nossos descendentes
Mais que estas pedras
Que vosso governo tomará também

Vamos!
Escreve
Bem no alto da primeira página
Que não odeio os homens
Nem agrido ninguém
Mas se me esfomeiam
Comerei a carne de quem me despoja
E cuidado: cuidado
Com minha fome
E minha cólera

Mahmoud Darwish (1941-2008), o poeta palestino por excelência, é  o autor de “Carteira de identidade”, cujos excertos transcrevemos na quarta capa. O poema é mais conhecido como o hino nacional palestino, que todos os cidadãos sabem de cor. Este poeta da dor do exílio e dos anseios de regresso à pátria tem trinta livros de poesia e oito de prosa, traduzidos para cerca de vinte línguas. Tornou-se, assim, o porta-voz da oposição muçulmana a Israel.

Além de devotar sua arte a essa causa, sua vida de militante o comprova. Nasceu numa família de lavradores, desapossada da terra logo no pós-Guerra, quando a ofensiva dos judeus expulsou perto de 1 milhão de palestinos. Na trajetória de idas e vindas que foi a sua, a família fugiu para o Líbano, porém mais tarde regressaria. Membro do Partido Comunista, que deixaria mais tarde, faria seus estudos na Universidade de Moscou. Entra para a Organização para a Libertação da Palestina (OLP)  em 1973. Banido, voltaria mais uma vez, em 1995, instalando-se em Ramalah; mas seria novamente obrigado a exilar-se.

Fez parte da direção da OLP, junto com outro intelectual e compatriota, Edward Said. Ambos redigiram a Declaração de Independência da Palestina. E ambos deixaram a direção após os acordos de Oslo, em 1993, que consideraram demasiado tímidos.

Renomado como o principal poeta palestino, acumulou prêmios pelo mundo afora. Ao morrer, no ano passado, seria enterrado em Ramalah, onde jaz Arafat. Fez jus a funerais de Estado e a três dias de luto oficial.