Eu parto que nem ar,

sacudo os cabelos brancos ao sol

que se está indo embora,

derramo em remoinhos minha carne

e deixo-a flutuando em pontas rendilhadas.

Eu me planto no chão para crescer

com a relva que eu amo:

quando vocês de novo me quiserem,

é só me procurarem

debaixo da sola de seus sapatos.

Dificilmente saberão quem sou

ou o que eu quero dizer,

mas mesmo assim eu hei de ser para vocês

boa saúde, dando ao sangue de vocês

pureza e energia.

Se logo de saída não me acharem,

mantenham a coragem:

se me perderem num lugar, procurem

achar-me noutro:

em algum ponto eu hei de estar parado

à espera de vocês.

(tradução de Geir Campos)

Disseram que Walt Whitman, anos depois, conseguiu ser o poeta da revolução americana. E que enfermeiro na Guerra da Secessão, teria exposto o liberalismo individualista, o igualitarismo antifeudal ou ainda a vitalidade inaugural do capitalismo na América. As gotas de poesia que Teoria & Debate oferece ao leitor sugerem que não há um Whitman verdadeiro. Elas vêm de Songs of Myself (Canto a Mim Mesmo), um fragmento de Leaves of Grass (Folhas das Folhas da Relva, Editora Brasiliense) que, como Whitman gostava de brincar, não era um livro, pois bastava tocá-lo para que surgisse um homem. Nascido num vilarejo em Long Island, perto de New York, Whitman (1819-1892) permanece o poeta americano que mais derramou seiva e espalhou raízes de liberdade pelo mundo afora.