Quem comanda o rio?
O mito?
A lei?
A lenda?
Onde se perde o mapa,
o portulano?
Em que meridiano, norte ou sul,
ou em que pólo?
Amazônia
Amazônia
quem te ama?
Quantas vezes, no tempo, o rio encheu-se,
E, quantas outras, vazou?
O rio não tem consciência
de si mesmo
e sua existência é ser corrente.
O rio-em-si não é
nem bom, nem mau.
É rio.
É, sendo rio
inunda a seca,
pois, inundar e secar
é o ser do rio
e sua inconsciência de si mesmo.
O poema ovula-se notícia
E nem se quer
ou canto ou melopéia.
Quer olhar e dar voz ao que se mostra.
Pois, Tirésias atônito pergunta
aos pálidos pajés sobreviventes:
se o rio nada sabe se si mesmo,
quem saberá do rio
e de seus homens?
O poeta, teatrólogo e ensaísta paraense João de Jesus Paes Loureiro (nascido em Abaetetuba, em 1939), constrói desde o início dos anos 60 uma obra de forte tensão ético-simbólica e grande empenho formal. Em 1999, ele lançou as suas Obras Reunidas, numa belíssima edição em quatro volumes (SP, ed. Escritura), que ganhou inclusive o prêmio de “Melhor Projeto Editorial do Ano”, conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte, Benedito Nunes, prefaciando a edição, afirma que a poesia de Paes Loureiro, em especial a mais recente, é “balizada por uma visão amazônica do mundo.” Segundo o crítico, ela potencializa ao máximo “o uso regional da língua portuguesa”, aproveitando-lhe com notável sensibilidade estética “o sumo das peculiaridades léxicas”, nisso continuando “o trabalho pioneiro de Raul Bopp em Cobra Norato.” E conclui que “a radicação à terra dispensa às margens um nexo de generalizado erotismo”. Entre suas obras poéticas mais significativas, estão: Remo Mágico (Belém, 1975), Deslendário (RJ,1981), Cantares Amazônicos (SP, 1984), Artesão das Águas (Belém, 1989), Altar em Chamas (SP, 1989). Na vertente ensaística, destaca-se Cultura Amazônica – Uma Poética do Imaginário (Belém, 1991), tese de doutorado em sociologia da cultura defendida na Sorbonne, Paris, no ano anterior.
