As eleições de 2026 recolocaram a religião no centro do debate político brasileiro. Mas é preciso uma cautela: não existe um único critério capaz de explicar a diversidade religiosa do país. O Brasil reúne diferentes tradições religiosas e também milhões de pessoas sem religião. Neste artigo, o foco está principalmente nas igrejas cristãs, católicas e evangélicas, pelo seu peso demográfico, social e político.
A questão central é a ação das igrejas nas eleições. Ela não pode ser medida apenas pelo voto. Igrejas e lideranças também participam da formação de valores, opiniões, identidades e visões de mundo.
Isso não significa que exista um “voto religioso” uniforme ou que as igrejas formem um bloco político. Significa reconhecer que a religião participa da vida social de milhões de brasileiros e pode influenciar suas escolhas políticas.
Religião e voto
O primeiro turno terminou com uma disputa bastante concentrada entre os dois candidatos que avançaram para a segunda etapa. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos votos válidos, e Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 53.876.617 votos, 45,16%. Juntos, concentraram mais de 92% dos votos válidos (TSE, 2026).
Esse resultado, por si só, não permite atribuir à religião a votação de nenhum dos candidatos. O voto é resultado de múltiplos fatores. Mas o primeiro turno permite observar a presença da religião na disputa e os limites de tratar os religiosos como um bloco eleitoral.
O Censo Demográfico de 2022 registrou 47,4 milhões de pessoas de 10 anos ou mais que se declararam evangélicas, correspondendo a 26,9% dessa população. No mesmo grupo etário, 100,2 milhões se declararam católicas. O crescimento evangélico não significou o desaparecimento do catolicismo. O Brasil continua sendo majoritariamente cristão, mas sua composição religiosa se tornou mais diversificada (IBGE, 2025).
É um erro, portanto, tratar os evangélicos como um bloco eleitoral. Há diferenças de classe, território, idade, raça, gênero, formação, tradição teológica e experiência política. Há evangélicos de direita, de esquerda e de centro. O mesmo vale para os católicos e para outras tradições religiosas.
A religião pode participar da formação de valores, opiniões e identidades. Pode ajudar a interpretar a realidade e orientar escolhas, mas não determina sozinha o voto.
O que as pesquisas mostram
As pesquisas de 2026 ajudam a observar a relação entre religião e voto. Mas é importante não confundir diferença eleitoral entre grupos religiosos com influência das igrejas.
Em agosto, a pesquisa Genial/Quaest mostrava Lula com 47% entre os católicos, contra 27% de Flávio Bolsonaro. Entre os evangélicos, Flávio tinha 43% e Lula, 24%. A margem de erro era de 3 pontos percentuais entre católicos e 4 pontos entre evangélicos, com intervalo de confiança de 95% (Quaest, 2026).
Os números mostram uma diferença importante entre os grupos. Mas não explicam sua causa. Religião se cruza com renda, território, idade, escolaridade, raça, gênero, identificação política e avaliação do governo.
Outro dado é mais diretamente relacionado à ação das igrejas. Pesquisa DataFolha divulgada às vésperas do primeiro turno mostrou que a parcela dos eleitores que considerava que líderes religiosos tinham alguma ou muita influência sobre seu voto passou de 23%, em julho, para 30%. A margem de erro da pesquisa era de 2 pontos percentuais. Entre católicos, o índice chegou a 31%; entre evangélicos, a 39% (DataFolha, 2026).
Esse resultado permite falar em aumento da influência percebida das lideranças religiosas. Não permite afirmar, sozinho, que tenha aumentado a influência efetiva sobre o voto.
Essa diferença é fundamental.
Uma liderança pode aparecer mais, produzir mais conteúdo e ser considerada importante por mais eleitores sem conseguir determinar a decisão deles.
Outro levantamento ajuda a colocar o dado em perspectiva. Pesquisa PoderData/Aya mostrou que 63% dos entrevistados não consideravam a religião dos candidatos um fator importante na definição do voto, enquanto 31% consideravam (PoderData/Aya, 2026).
Temos, portanto, três situações diferentes: presença, influência percebida e influência efetiva.
A presença pode ser observada pela participação de igrejas e lideranças na comunicação e na disputa política. A influência percebida pode ser medida quando o eleitor declara que uma liderança religiosa interfere em sua decisão. Já a influência efetiva exige demonstrar que essa intervenção produziu mudança ou orientação no voto.
As pesquisas permitem observar as duas primeiras. A terceira exige estudos específicos e não pode ser deduzida automaticamente dos levantamentos de intenção de voto.
Estudos sobre as eleições de 2022 encontraram associação entre manifestações eleitorais de lideranças católicas e evangélicas e o voto em Bolsonaro. Ferreira e Fuks (2025) identificaram efeito eleitoral dessas manifestações naquele pleito. É uma evidência importante, mas não é prova de que lideranças religiosas tenham determinado o resultado de 2026.
A ação das igrejas foi mais intensa?
Essa é a pergunta central.
Ainda não é possível afirmar, de maneira definitiva, que a ação das igrejas tenha sido maior do que em eleições anteriores em termos de efeito sobre o resultado eleitoral. Faltam pesquisas que consigam separar o peso da religião de outras variáveis que também interferem no voto.
Mas há sinais de uma presença mais ampla.
A religião ocupou espaço importante nas redes sociais. Lideranças religiosas participaram diretamente da disputa. Símbolos religiosos foram incorporados ao conflito político. Candidaturas com referências religiosas continuaram presentes. E o DataFolha registrou aumento de 23% para 30% na parcela dos eleitores que atribuíam alguma ou muita influência aos líderes religiosos sobre seu voto (DataFolha, 2026).
Esses elementos permitem sustentar a hipótese de que a ação das igrejas e das lideranças religiosas foi mais intensa em presença, comunicação e disputa de valores.
Mas é preciso evitar um passo além do que os dados permitem.
Não temos base suficiente para afirmar que essa maior presença tenha produzido maior capacidade efetiva de determinar o voto.
Essa é a principal conclusão das pesquisas: mais presença não significa necessariamente mais influência; influência percebida não significa determinação do voto.
Além da disputa pelo voto
A relação entre religião e política, porém, não termina na urna.
Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, em 2025, argumentei que a apropriação política do sagrado pode transformar o adversário em inimigo da fé e fazer com que o apoio a um líder adquira uma dimensão de devoção (Sabanay, 2025).
O problema não está na religião participar do debate público. Em uma democracia, pessoas religiosas têm o mesmo direito que as demais de defender suas convicções.
O problema começa quando uma determinada interpretação religiosa pretende falar em nome de toda a sociedade, quando uma escolha política é apresentada como verdade sagrada ou quando o adversário passa a ser tratado como inimigo moral.
Por isso, além de perguntar quem votou em quem, é preciso observar quem produz as ideias, valores e informações que circulam nas comunidades religiosas.
Existe uma “indústria religiosa”?
A expressão “indústria religiosa” exige cuidado. Não significa que todas as igrejas funcionem como empresas ou que a fé possa ser reduzida ao dinheiro.
A literatura acadêmica brasileira trabalha com conceitos como mercado religioso, economia religiosa e empreendedorismo religioso, analisando competição entre organizações, profissionalização, comunicação e estratégias de mobilização (Mariano, 2008; Corrêa; Vale, 2017).
Neste artigo, “indústria religiosa” é usada apenas como expressão para designar estruturas permanentes de produção e circulação de conteúdos religiosos: igrejas, lideranças, meios de comunicação, redes sociais, produtores de conteúdo, livros, músicas, vídeos, programas e eventos.
Essa estrutura não funciona apenas durante as eleições. Está presente todos os dias.
Algumas dessas redes produzem solidariedade, participação comunitária e defesa de direitos. Outras podem reproduzir intolerância, desinformação ou autoritarismo.
Por isso, não basta perguntar quantos votos um candidato recebeu entre evangélicos ou católicos. É preciso perguntar também quem produz as narrativas que circulam nessas comunidades e quais valores elas reforçam.
A disputa eleitoral é apenas um momento de um processo mais amplo de formação social.
Quando o símbolo religioso entra na disputa política
O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida mostrou como símbolos religiosos podem ser rapidamente incorporados à disputa política. A circulação de uma informação falsa segundo a qual Flávio Bolsonaro pretendia retirar o título de Padroeira do Brasil provocou uma reação política e religiosa que ultrapassou rapidamente o fato original (Folha de S.Paulo, 2026).
O episódio é revelador não porque demonstre que os católicos tenham votado de determinada maneira, mas porque mostra a força política que um símbolo religioso pode adquirir quando inserido em uma disputa eleitoral.
Também as candidaturas com referência religiosa merecem atenção. Levantamento do Inesc e da Common Data identificou 445 candidaturas com referência religiosa no nome, correspondendo a 2,2% das candidaturas analisadas. A maioria concorria por partidos classificados como de direita, mas também havia candidaturas de esquerda e de centro (Inesc; Common Data, 2026).
Esses números não representam o conjunto dos religiosos brasileiros. Mostram uma parte organizada da presença religiosa na política institucional.
Igrejas não são máquinas eleitorais
Há outro dado importante.
Igrejas e comunidades são espaços de convivência, solidariedade, comunicação e formação de opiniões. Ao mesmo tempo, os próprios fiéis estabelecem limites à transformação desses espaços em estruturas eleitorais.
Isso ajuda a entender por que uma igreja pode ter capacidade de formar valores sem necessariamente conseguir determinar o voto de seus membros.
A religião participa da vida cotidiana. Está nas famílias, nos bairros, nas comunidades, nas redes de amizade e nas relações de confiança.
Por isso, não é suficiente tratar os religiosos como um segmento eleitoral a ser conquistado.
É preciso compreender as condições sociais que fazem das igrejas espaços tão relevantes para milhões de brasileiros.
Isso exige ouvir as comunidades e não apenas suas lideranças. Exige conhecer as diferentes denominações. Exige compreender os territórios. E exige reconhecer que existem cristãos em diferentes posições políticas.
E a esquerda?
Esse cenário coloca um desafio importante para a esquerda.
O primeiro é não enxergar a religião apenas como um território eleitoral a ser conquistado. A religião é parte da sociedade brasileira.
O segundo é não responder à presença de setores conservadores religiosos com preconceito contra a religião. Isso seria um erro político e democrático.
O terceiro é compreender que existe uma disputa cultural permanente. Se setores da direita construíram, ao longo dos anos, redes de comunicação, formação, pertencimento e produção de narrativas, não será possível enfrentar esse processo apenas durante uma campanha eleitoral.
É necessário conhecer melhor as diferentes tradições religiosas, dialogar com suas comunidades, reconhecer suas contradições internas e construir uma relação baseada em respeito, escuta e autonomia.
A defesa do Estado laico é parte desse esforço.
Estado laico não significa Estado contra a religião. Significa que nenhuma religião possui o direito de se apresentar como dona do Estado ou como representante de toda a sociedade. Significa também garantir a liberdade de quem crê e de quem não crê.
A democracia não exige que alguém abandone sua fé para participar da política. Exige que nenhuma fé possa reivindicar, sozinha, o direito de definir a cidadania de todos.
O segundo turno e o desafio maior
O segundo turno reorganiza a disputa. Os candidatos precisam ampliar seus públicos e dialogar com setores que não foram decisivos ou permaneceram distantes no primeiro turno.
Nesse processo, a religião continuará presente. Mas o desafio é não transformar essa presença em uma simples disputa por segmentos eleitorais.
A questão é como dialogar com uma sociedade na qual a religião continua sendo uma importante fonte de identidade, valores, pertencimento e interpretação da realidade.
As pesquisas mostram diferenças entre grupos religiosos e aumento da influência percebida das lideranças. Mas mostram também que a maioria dos eleitores não considera a religião um fator importante na definição de seu voto.
Por isso, não se deve confundir correlação com causalidade. O fato de um candidato ter maior intenção de voto entre evangélicos ou católicos não significa, por si só, que as igrejas tenham produzido esse resultado. Renda, território, idade, escolaridade, raça, gênero, avaliação do governo, identificação política e outros fatores também participam da decisão.
A resposta não pode ser abandonar o terreno religioso, nem instrumentalizar a religião para fins eleitorais. Também não pode ser aceitar que uma determinada corrente religiosa fale em nome de todos os cristãos ou de toda a sociedade brasileira.
As eleições de 2026 acrescentam uma dimensão importante à reflexão sobre religião e política: é preciso observar não apenas quando o poder político utiliza símbolos religiosos, mas também como igrejas, lideranças e redes de comunicação participam diariamente da formação de valores e opiniões.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas em quem os religiosos vão votar.
É preciso perguntar quem disputa, todos os dias e muito antes da urna eletrônica, a formação da consciência social dos religiosos e da sociedade brasileira.
A ação das igrejas pode ter sido mais intensa em presença, comunicação e disputa de valores. As pesquisas dão elementos para sustentar essa percepção. Mas elas não permitem concluir que essa presença tenha determinado o voto.
O desafio é maior que o voto: é compreender a sociedade que vota.
Luís Alberto de Mendonça Sabanay é teólogo, pastor presbiteriano e dirigente nacional do Partido dos Trabalhadores
Referências
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