Não é em altura que seu arbusto
se ombreia com o pinheiro:
é pela fruta.
Íntima amiga da geometria
do pinho tão só se distancia
pela recusa à agreste armadura.
Nenhum lampejo de indiferença
machuca-lhe a vestimenta:
antes a luz emprega no fabrico da alma
tenra (que lateja),
parente do alegre bem-me-quer
do espelhante girassol.

Pertença da floricultura e da boa
mesa, ornamenta o paladar
com a lembrança das nascentes:
não são de lâmina as escamas,
mas (degustáveis) dádivas mediterrâneas
dispostas no coração em tranca.
Apenas pequenas setas mantém
(em íntima contenda)
a provocar torneios entre língua e dentes.

– Cota de cavaleiro andante,
em que terna demanda atuas?

Livro de Possuídos, 2002

Maria Lúcia Dal Farra (1942), paulista de Botucatu, aclimatou-se em Sergipe. Ensina literatura portuguesa, especialidade a que se prende boa parte de sua produção, em várias modalidades. Na ensaística, fez doutoramento sobre Baudelaire e a poesia francesa, além de ser editora e estudiosa de Florbela Espanca. Escreveu ainda A Alquimia da Linguagem, sobre Herberto Helder, e O Narrador Ensimesmado, sobre Vergílio Ferreira. Também publicou um livro de ficção, Inquilina do Intervalo.

Estreia como poeta com Livro de Auras (1994), a que se segue Livro de Possuídos (2002).

Pratica o verso livre, salpicado cá e lá de rimas toantes. Não se iluda o leitor ao ver que privilegia a condição feminina, trazendo a primeiro plano a casa, as tarefas miúdas, o abastecimento, os gatos, os apetrechos domésticos, o boi, as plantas do jardim e do quintal. Na verdade, tudo isso é envolto em erotismo e em metafísica, dando voz a uma meditação da coisa teimosa, sem desfalecimento.

Um exemplo é o poema que reproduzimos aqui, que fornece uma única imagem, entretanto submetida a uma meditação que vai recobrindo o objeto com analogias, paradoxos, abordagens ousadas, sinestesias, interrogações sobre uma possível genética, sensações e percepções. O resultado é o espessamento da única imagem, em seus desdobramentos, muitos deles inusitados.

Por isso se pode falar em poesia fenomenológica, baseada na deleitação intelectual, acumulando  iluminações, epifanias, alumbramentos. Em meio à azáfama da rotina, a autora entrega-se à contemplação e ao êxtase. Um poema como esse a aproxima da  pintora setecentista portuguesa Josefa de Óbidos, que empresta seus pincéis a visões – tanto as de Santa Teresa, cujo coração transverbera, quanto as de San Juan de la Cruz – e nem por isso deixa de pintar naturezas-mortas miudamente veristas mas cheias de elevação e transcendência.