Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

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Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) vem de nos deixar, e não parece exagero colocá-lo na posição de um dos maiores poetas do mundo.

Apesar de detentor de cinco diferentes indicações para o Nobel, acabou morrendo sem fazer jus ao cobiçado galardão, enquanto candidatos, menos merecedores foram agraciados. Mas isso não é bem uma novidade, e ele pode repousar na companhia de Proust, Tolstoi, Kafka, Joyce, Fernando Pessoa, Caváfis, Ezra Pound, todos eles em vida por um bom tempo após a instituição do prêmio em 1901. O que só comprova o irresistível pendor do Nobel para o medíocre e conservador.

A poesia, fidelidade maior de sua trajetória, ocupou-o constantemente, através dos oitenta anos incompletos, a carreira na diplomacia, a residência fora do país por longos períodos, e terríveis enxaquecas. Deste prosaico tema sua poesia não fugiu, como mostra, entre outros, o poema “Num monumento à aspirina”: “Claramente: o mais prático dos sóis,/o sol de um comprimido de aspirina“. Caracterizam sua poesia a solidez, a economia de meios, a recusa ao derramamento sentimental, enfim o despojamento até à depuração. Esses traços se evidenciam na preferência pelo verso medido, porém sem rigidez, e pela rima, porém toante.

Ele mesmo aproximava esse tipo de poesia, de dicção seca e concisa, a uma espécie de “estética da pedra” – como a definiu nos poemas de seu livro Educação pela pedra, de 1966 – que atribuía à impregnação da aridez do sertão. Foi essa a tendência pessoal que o levou a se sentir tão à vontade nas paisagens descarnadas da Espanha, quando lá serviu.

Daí sua produção, reduzida e refinada, contida em volumes de poucas páginas e de escassa circulação. Dela, o exemplo mais conhecido é sem dúvida “Morte e vida severina”, auto de Natal em versos, popularizado pelo teatro e pela televisão.

Discreto e reservado, preservava sua vida privada e recalcitrava ante os holofotes da notoriedade. Melhor divulgado por antologias, conhecera um primeiro lampejo de fama e tivera sua reputação firmada ao ganhar com O rio o concurso do IV Centenário de São Paulo, em 1954, por decisão do júri composto por Antonio Candido, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Mendes de Almeida. Integrava as festividades de um congresso internacional de literatura a que compareceram, entre outros representantes, o prêmio Nobel de 1949, William Faulkner, e Robert Frost.

Perto de sua obra, inaugurada em 1942 com Pedra do sono e passando posteriormente por alguns livros que constituem marcos básicos das letras brasileiras, a de qualquer outro poeta contemporâneo soa palavrosa.