Em cruzar a sala zumbindo o ouro negro
de sua couraça
o besouro
absoluto
ébano espanta
o piano que, plantado no chão, ergue-se
atrapalhado na ponta das patas sem poder
tocar a nave que
navalha
o ar
com sua canção-verniz. E
o pobre Steinway supõe ser o inseto
ali um sinal, um seu semelhante,
talvez um
filho.
Eucanaã Ferraz, carioca, nascido em 1961, é autor de quatro livros de poesia: Martelo (1997), Desassombro (2002), que recebeu o prêmio da Biblioteca Nacional, Rua do Mundo (2004) e Cinemateca (2008). Em sua obra predomina a imagem visual, instantânea, criando uma cena e tornando-a presente para o leitor.
Mimetizar o coloquial não é uma de suas metas. A filigrana do verso, rico de recursos, não coincide com unidades sintáticas, não imita a fala, interrompe-se quando menos se espera, frequentemente a contracorrente da fluência.
Revela forte impulso à formalização, o que, aliando-se à economia de meios e à depuração, traz à tona a importância conferida ao arcabouço, constituindo por assim dizer a ossatura da imagem. Essa poesia tão original procura casar o assunto à forma, enfatizando correspondências.
Conhece a linguagem e sabe usá-la. Vive no Rio de Janeiro, onde é professor de Literatura na UFRJ. Seu trato apaixonado com a poesia estende-se às atividades profissionais: fez mestrado sobre Carlos Drummond de Andrade e doutorado sobre João Cabral de Melo Neto.
No poema que estampamos na quarta capa podemos apreciar os bizarros laços de parentesco que se instauram entre dois seres “produtores de som”, um animado e outro inanimado, o desavisado besouro causando perplexidade e assombro ao piano. A graça do poema emana dessa inesperada confluência de duas esferas da empiria habitualmente separadas – mas isso é privilégio da poesia.
