Milhares de mulheres negras ocuparam as ruas do Rio de Janeiro, de São Paulo e de outras capitais brasileiras para cobrar reparação histórica, políticas públicas e participação efetiva nos espaços de poder. Realizadas durante o Julho das Pretas, as mobilizações mostraram que o enfrentamento ao racismo está diretamente ligado à disputa política e à capacidade de mulheres negras influenciarem as decisões do país.
No Rio de Janeiro, a 12ª Marcha das Mulheres Negras levou milhares de pessoas à orla de Copacabana no domingo (26). O ato defendeu a democracia, o combate ao racismo, a reparação e o bem viver. Em São Paulo, a 11ª edição da marcha reuniu centenas de participantes na Praça Roosevelt, no sábado (25), e homenageou Luana Barbosa, mulher negra, lésbica e periférica morta após ser abordada e agredida por policiais militares em 2016. Dez anos depois, nenhum envolvido foi preso ou condenado.
As manifestações ocorreram em torno do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e do Dia Nacional de Tereza de Benguela, celebrados em 25 de julho. Ao longo do mês, quase 700 atividades foram organizadas por mais de 290 coletivos em 23 estados e no Distrito Federal, com ações voltadas ao combate ao racismo e à defesa dos direitos das mulheres negras.
Reparação exige ação do Estado
No Rio, a coordenadora do Fórum Estadual de Mulheres Negras, Clátia Vieira, afirmou que não será possível alcançar o bem viver sem políticas de reparação e sem reconhecer o racismo como parte estrutural da sociedade brasileira.
Segundo ela, é necessário ouvir as mulheres negras e compreender como racismo e desigualdade econômica se combinam para produzir desemprego, instabilidade e violência. A marcha cobrou medidas públicas capazes de romper um modelo que mantém mulheres negras entre as mais vulneráveis no mercado de trabalho e nos serviços de cuidado.
A educadora Bárbara Carine participou do ato com a família e destacou a importância de levar crianças aos espaços de mobilização. Para ela, a marcha permite reconhecer os avanços alcançados, mas também expõe a distância que ainda separa a população negra de condições dignas de vida.
“A gente quer passar das pautas de sobrevivência”, afirmou.
Marielle Franco, assassinada em 2018, também esteve presente nas faixas, camisetas e falas das manifestantes. Marinete Silva, mãe da vereadora, lembrou que Marielle participou da marcha em 2017 e defendia a ampliação da participação política das mulheres negras.
“A participação política das mulheres é essencial e também era um projeto dela”, disse Marinete.
Luana Barbosa e a violência sem resposta
Em São Paulo, o nome de Luana Barbosa deu o tom da mobilização. O lema da marcha ligou a memória de sua morte à luta por direitos, reparação, bem viver e presença das mulheres negras nas ruas e nas urnas.
Cofundadora do evento, Juliana Gonçalves afirmou que outras mulheres negras e lésbicas continuam sendo vítimas de violência no estado. Ela também destacou a contribuição econômica das mulheres negras, especialmente no trabalho de cuidado, ainda pouco reconhecido e mal remunerado.
“As mulheres negras levantam essa economia, fazem o trabalho de cuidado que não é reconhecido e, mesmo assim, são as que menos ganham”, afirmou.
A marcha reuniu lideranças políticas, feministas e religiosas, artistas e representantes de movimentos negros. Mulheres de religiões de matriz africana denunciaram a intolerância religiosa e a ausência de respostas firmes do poder público diante da violência racial.
O ato também teve apresentações culturais e intervenções voltadas à ancestralidade. O coletivo Bando das Macuas apresentou uma performance inspirada no povo Macua, do norte de Moçambique, enquanto DJs tocaram rap e hip hop com letras de protesto.
Mulheres negras nas ruas e nas urnas
Além de Rio e São Paulo, marchas foram realizadas em Recife, Belo Horizonte, Belém e Salvador. As mobilizações tiveram como pontos comuns a cobrança por reparação e a defesa do bem viver, entendido como um modelo baseado em cuidado, coletividade, justiça social e preservação da vida.
Em Recife, as manifestantes denunciaram a baixa presença de mulheres negras nos espaços de decisão. Em Belo Horizonte, o ato homenageou os 12 anos da Associação de Trabalhadoras Domésticas Tereza de Benguela. Em Belém, a marcha percorreu a Praça da República, parcialmente erguida sobre um antigo cemitério de pessoas escravizadas, e defendeu a ancestralidade como projeto de futuro.
Uma das organizadoras do ato paraense, Flávia Vieira, chamou atenção para o peso eleitoral da população negra e para a necessidade de escolher representantes comprometidos com seus direitos.
“Nós somos o maior grupo político e vamos decidir as eleições”, afirmou.
Em Salvador, a mobilização organizada pelo Odara – Instituto da Mulher Negra reuniu mulheres, famílias e crianças em torno da ancestralidade, da igualdade e da justiça. A marcha integrou a extensa programação do Julho das Pretas, que consolidou o 25 de julho como data de mobilização nacional e de pressão sobre governos, parlamentos e instituições.
Ao ocupar as ruas, as mulheres negras reafirmaram que reparação, renda, segurança, liberdade religiosa e representação política fazem parte da mesma agenda. No Rio, em São Paulo e nas demais capitais, as marchas cobraram do Estado respostas para desigualdades históricas ainda presentes na vida cotidiana.
Com informações da Agência Brasil
