Lua cheia apontou, pororoca roncou

Vem que vem vindo como uma onda inchada

rolando e embolando

com a água aos tombos

Vagalhões avançam pelas margens espantadas

Um pedaço de mar mudou de lugar

Somem-se ilhas menores

debaixo da onda bojuda

arrasando a vegetação

Fica para trás o mangue

aparando o céu com braços levantados

Florestinhas se somem

A água comovida abraça-se com o mato

Estalam árvores quebradas de tripa de fora

Pororoca traz de volta a terra emigrante

Levada pela correnteza

Raul Bopp (1898-1984) ganhou renome graças à repercussão de seu Cobra Norato (1931), considerado como a epopéia da Amazônia, território por onde o poeta gaúcho circulou. Ficaria por isso associado à vertente primitivista do Modernismo. Elaboração lírica da mitologia de uma natureza luxuriante, que exerceu impacto sobre sua imaginação e a de tantos outros, teve apreciável sucesso em seu tempo e é até hoje reeditado. Bem mais tarde, porém, em craveira de prosa realista, o amazonense Márcio Souza elaboraria as sagas locais em vários romances, a partir de Galvez, Imperador do Acre e de Mad Maria, continuando pela série de Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro.

Participante do cenáculo modernista, Raul Bopp devotou-se à pesquisa da linguagem, sobretudo regional. Numa poética telúrica e atávica, com mergulhos no inconsciente, dá voz às visagens e às raízes. Fala da galáxia das águas, do caos primevo e da demanda das Terras do Sem Fim. Vai desdobrando a lenda da Cobra Grande, herói civilizador venerado pelos índios, combinada com a busca da “filha da rainha Luzia”, pela qual o protagonista se apaixona mesmo sem conhecê-la. Ao expandir cada vez mais suas redes, os versos livres vão recolhendo lances e figuras do imaginário daquelas paragens.

O poeta seria um dos diretores da Revista de Antropofagia; e de fato sua arte, urdindo a simbologia nativa, mostra afinidade com as propostas de Oswald de Andrade.

No conjunto da obra, destacam-se os indispensáveis depoimentos sobre o período que são Movimentos Modernistas no Brasil (1966) e Vida e Morte da Antropofagia (1977). Afastou-se das lides propriamente poéticas logo cedo, em 1932, quando se votou à carreira diplomática e despediu-se do Brasil. Afora Cobra Norato (1931), a que pertence o poema da quarta capa, publicou ainda Urucungo (1932) e Poesias (1947).