A decisão do governo dos Estados Unidos, anunciada dia 28 de maio, de classificar como “terroristas” duas organizações criminosas existentes no Brasil – “Comando Vermelho” e “Primeiro Comando da Capital (PCC)” –, enquadrando-as na categoria “Specially Designated Global Terrorists (SDGTs)”, com a promessa de, até 5 de junho, serem incluídas na lista de organizações terroristas estrangeiras (“Foreign Terrorist Organizations – FTO)”, do Departamento de Estado, gerou muita indignação no governo federal e em grande parte da sociedade brasileira.
Essas duas organizações criminosas, classificadas pelos Estados Unidos como “terroristas”, não têm atuação política ou ideológica. As organizações criminosas no Brasil que efetivamente disputam o poder político são as “milícias”, umbilicalmente ligadas à extrema direita e que atuam substituindo o Estado, em áreas da periferia das grandes cidades. Estima-se que haja “milícias” em quinze estados do Brasil, ocupando parte expressiva das 12.348 Favelas e Comunidades Urbanas identificadas no Censo Demográfico de 2022, nas quais viviam 16,4 milhões de pessoas.
As “milícias” são lideradas por profissionais de segurança, que dominam territórios “a ferro e fogo” e disputam espaço político a nível local, estadual e nacional: elegem vereadores, e investem na eleição de deputados estaduais e federais, senadores, governadores, e presidentes da República. O senador de extrema direita Flávio Bolsonaro, candidato à presidência do Brasil, homenageou em 2005, com a medalha Tiradentes, um dos líderes de milícia mais conhecido, integrante do “Escritório do Crime” no Rio de Janeiro. Na ocasião, o hoje candidato era deputado estadual, e Adriano da Nóbrega, o homenageado, era tenente da Polícia Militar e estava preso, acusado de homicídio.
Ao classificar criminosos comuns da América Latina como terroristas, acusando-os de atentarem contra a sua “segurança nacional”, o governo Trump enfraquece o conceito de terrorismo, apenas para explicar suas injustificáveis ações militares e intervenções nos assuntos internos de outros países, e cria vários problemas para os países que acusa (México, Brasil), sem conseguir com isso diminuir o consumo de drogas ilícitas nos Estados Unidos.
Em termos práticos, classificar narcotraficantes como “terroristas” diminui a atuação especializada do DEA e do FBI, e aumenta a de militares e da CIA, na lógica antiga (desde 1971) da “Guerra às Drogas” do governo Nixon em diante. As ações militares e policiais nesses 55 anos, para acabar com a utilização de drogas ilícitas, produziram resultados negativos: os EUA têm a maior população encarcerada do mundo, e overdose é a principal causa de mortes no país, de pessoas entre 18 e 45 anos de idade, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC)/Centro Nacional de Estatísticas de Saúde: morreram 645 mil pessoas nos Estados Unidos por overdose de opiáceos, entre 1999 e 2021. O total de mortes por overdose nos Estados Unidos, de todas as drogas, superou 110 mil mortes, em 2022 e em 2023.
Em 2024 e 2025 houve redução das mortes por overdose: 91,7 mil e 72,8 mil, respectivamente. Somente por fentanil foram 73,6 mil mortes em 2022.
Ao atacarem e matarem o principal líder do Irã e sua família, e várias outras lideranças políticas e militares iranianas, o governo Trump deixou bem claro para o mundo inteiro que não segue normas legais internacionais. Ao financiar a atuação militar de Israel, na prática é cúmplice do genocídio em Gaza e das mortes e destruição no Líbano. E os bloqueios e sanções contra Cuba e a Venezuela, declaradamente para impor mudança dos seus governos, também causam mortes e destruição, e se configuram inaceitável intervenção nos assuntos internos de todos esses países.
Essa postura agressiva do governo Trump resultou na devastação da economia da Venezuela, desde as primeiras sanções dos Estados Unidos contra o país a partir de 2017. Causaram profunda crise econômica, inviabilizaram o governo, e empobreceram a população, resultando na emigração de mais de sete milhões de pessoas.
Graças à campanha permanente de propaganda, transformaram o presidente eleito do país em “ditador” e “líder de organização narcotraficante”. Por isso, quando os Estados Unidos invadiram Caracas em 3 de janeiro de 2026, mataram a equipe de segurança do presidente da Venezuela, e sequestraram ele e sua mulher, é bem possível que parte da opinião pública mundial tenha considerado correta a ação.
Coincidentemente, foi também em um dia 3 de janeiro (de 1990) que outro “ditador narcotraficante” foi capturado por tropas dos Estados Unidos: Manuel Noriega, do Panamá. Nesse caso, após duas semanas de batalhas urbanas, que causaram a morte de centenas de pessoas. A invasão do Panamá pelos Estados Unidos, em 20 de dezembro de 1989, foi a primeira ação militar desse tipo após o fim da “Guerra Fria”, inaugurando a série mórbida que esse ano já teve dois episódios significativos (Venezuela e Irã), duas ameaças (Cuba e Groenlândia) e dois “ensaios” rechaçados (Canadá e México). E em 6 de fevereiro de 2025, por pressão dos Estados Unidos, o Panamá anunciou sua retirada do acordo com a China da Iniciativa Cinturão e Rota.
Quando essas duas organizações criminosas do Brasil forem classificadas como FTO, os Estados Unidos poderão perseguir e prender brasileiros – empresários em geral e executivos do sistema financeiro em particular, políticos, policiais, militares –, e julgá-los (nos Estados Unidos) como cúmplices ou coniventes, acusados de proporcionar “apoio material” às organizações listadas como terroristas.
Se o governo Trump quisesse realmente acabar com a lavagem de dinheiro do crime organizado, do terrorismo e da corrupção, os Estados Unidos já teriam invadido todos os “paraísos fiscais” e levados para o Forte Knox as enormes fortunas dos mega bandidos depositadas nas contas secretas desses bancos de fachada. Mas isso ele não fará, não é mesmo?
Brasil: “quintal” dos Estados Unidos?
A questão central, para os Estados Unidos, não é a concorrência direta do Brasil em grãos e carnes. O decisivo é o de sempre: os imensos recursos naturais. Agora, principalmente minerais para o funcionamento de todos os equipamentos do mundo tecnológico, dos celulares aos veículos elétricos.
Durante o período no qual o Brasil era “quintal” dos Estados Unidos (anos 1950-90), tão bem descrito no livro “Seja Feita a Vossa Vontade: A Conquista da Amazônia – Nelson Rockefeller e o Evangelismo na Idade do Petróleo”, dos jornalistas Gerard Colby e Charlotte Dennett, as empresas estadunidenses lucraram muito, em todo o território brasileiro.
A partir dos anos 2000, com o aumento das relações institucionais e comerciais do Brasil – e demais países da América do Sul – com a China, os Estados Unidos foram perdendo protagonismo no continente. Com o porto de Chancay, no Peru, construído e operado por empresa chinesa, o Brasil terá, finalmente, saída pelo Pacífico, reduzindo muito os custos e tempo das viagens marítimas até o Leste da Ásia. Com a construção de ferrovia do Brasil até o Peru, aumentará a competitividade internacional dos produtos brasileiros, o que possibilitará superar a concorrência dos produtos dos Estados Unidos.
Ao intervir no processo eleitoral brasileiro em 2026, com a manipulação do conceito de terrorismo, para poder incluir as duas organizações criminosas comuns no seu raio de ação militar e jurídica, e assim pretensamente ajudar o candidato da extrema direita à presidência do Brasil, o governo Trump mais uma vez despreza as normas legais internacionais e reafirma a sua disposição de agir a qualquer preço para obter as terras raras e outros minerais do Brasil, tão necessários às indústrias de alta tecnologia dos países mais desenvolvidos.
Quais outras ações o governo Trump está disposto realizar, para beneficiar o candidato de extrema direita à presidência do Brasil, que se eleito fechará as portas do país para a China e abrirá para os Estados Unidos, como fez o seu pai, quando esteve na presidência da República, no período 2019/2022. Vivemos tempos sombrios, portanto. Seremos obrigados a negociar com mísseis apontados para Brasília? Nada impede que os Estados Unidos classifiquem como terroristas outras organizações criminosas comuns, e, na sequência, bloqueiem empresas do setor financeiro, juízes e quem bem entenderem, com acusações que levarão anos para serem comprovadas ou não. Não foi assim no ano passado, por causa do julgamento dos mandantes da tentativa de golpe de Estado?
Milton Pomar é professor, geógrafo, mestre em Políticas Públicas, coordenador de Parcerias Institucionais do Instituto de Estudos da China da Universidade Federal de Santa Catarina (https://ichin.paginas.ufsc.br/estrutura-interna/), integrante do Conselho Científico da Equipe Ásia do Centro de Estudos da Universidade Federal de Pernambuco (https://sites.ufpe.br/cea/equipe-asia/) e especialista da Red China y América Latina – Redcaem (https://chinayamericalatina.com/network/).
