Entrevista com Sérgio Amadeu da Silveira presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI) e autor do livro “Software Livre” (Editora Fundação Perseu Abramo).
Sérgio Amadeu da Silveira, presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI) e autor do livro “Software Livre” (Editora Fundação Perseu Abramo),destaca a importância do uso do código-fonte aberto, do compatilhamento do conhecimento tecnológico e da viabilidade econômica
1 – O que significa para usuários e desenvolvedores a adoção de programas de computadores com o código-fonte aberto?
Um dos pioneiros do movimento do software livre foi o pesquisador do MIT Richard Stallman. Ele costuma dizer que desenvolver um software é muito parecido com fazer um
bolo. O bolo tem uma receita que nos indica quais são os seus ingredientes, a ordem do que deve ser adicionado e a quantidade de cada coisa. Um software também é um
conjunto de rotinas lógicas encadeadas. Estas rotinas estão contidas no seu código-fonte.
Foto: Cesar Ogata
O software é livre quando temos acesso não somente ao seu executável, mas também aos seus fontes. Comparando, o usuário tem acesso não só ao bolo, mas também à sua receita. Assim, poderá saber como ele é feito e se quiser terá condições de alterá-lo e até mudar o seu sabor. Um software proprietário tem o seu código-fonte fechado e impede que as pessoas conheçam sua linha de programação. Impede que os cidadãos, empresas e estudantes tenham a liberdade de usá-lo para qualquer fim, de estudá-lo, melhorá-lo e distribui-lo com estas adequações. Enfim, o software livre dá ao usuário liberdade plena de conhecimento e uso.
2 – O que está em jogo na questão do software livre e como isso atinge interesses privados e interesses coletivos?
Quanto mais se informatiza a sociedade mais cresce a importância do software. Quanto mais a comunicação mediada por computador adquirir relevância, mais decisivo será o debate sobre o desenvolvimento e uso do software. Ou seja, o software pode ser visto como o principal intermediador da inteligência humana no que está sendo chamado de sociedade da informação. Para alguns pesquisadores, como Lawrence Lessig, o software assume a função da lei. Uma série de permissões e proibições são apresentadas como questões técnicas, “coisas do software”, mas estas possibilidades escondem decisões sociais. Como influem na vida de muitos e podem ser mudadas para beneficiar grupos e segmentos sociais, são decisões políticas. Existem dois modelos bem definidos de desenvolvimento e uso de software: o proprietário e o livre. O modelo proprietário se baseia em licenças de uso pagas e no código fechado. O modelo de software livre se baseia no compartilhamento do conhecimento tecnológico e, portanto, no código aberto. O movimento do software livre acredita na transparência e no uso das características intangíveis do software para possibilitar a distribuição de riqueza e poder.
3 – A campanha Software Livre propõe uma mudança de paradigma. Como será
feita a transição do modelo do software proprietário para o software livre?
Esta transição já está ocorrendo. Atualmente existem mais de 500 mil desenvolvedores de sofware livre no planeta. Sem você nunca ter visto um único anúncio em um jornal ou televisão, o software Apache já está presente em 2/3 dos webservers da Internet. Por outro lado, as poucas empresas que se beneficiam do modelo de software proprietário básico querem de todas as formas manter governos e empresas aprisionados às suas soluções. Entretanto, isto é economicamente inviável. É pouco provável que se contenha o movimento pelo compartilhamento do software. Seria como tentar conter o crescimento da Internet. Aliás, a Internet é um bom exemplo de como protocolos abertos e não-proprietários, desenvolvidos de modo compartilhado e mundial, podem se espalhar e viabilizar uma gigantesca adesão. O software livre é fundado no código aberto e aponta para a inovação contínua a partir do fomento à inteligência coletiva mundial incorporando a inteligência e as potencialidades locais.
4 – Como você define o Brasil em relação a outros países no que se refere ao uso das tecnologias da informação?
O Brasil é um país de profundos contrastes. Enquanto passamos a França, Espanha e Taiwan em número de hosts, servidores de Internet, assumindo em janeiro deste ano a 8ª posição no planeta, temos uma população excluída digitalmente, sem acesso básico às tecnologias da informação. Em termos relativos, temos menos internautas que o Chile e a Argentina. Por outro lado, somos um país que possui tecnologia de ponta. O Laboratório de Sistemas Integráveis da Politécnica da USP desenvolveu um cluster de computação distribuída que processa mais dados e de modo mais veloz que um supercomputador. Isto levou a ITAUTEC a comercializar esta solução e vendê-la para a Petrobras. Trocamos um supercomputador norte-americano de aproximadamente 8 milhões de dólares por uma solução melhor de menos de 200 mil dólares. Um ponto importante é que este cluster roda sobre o sistema operacional GNU/Linux, o mais popular software livre. A tecnologia da informação pode permitir que o Brasil dê um grande salto para frente, principalmente se apostar rapidamente no software livre.
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