“Querido diário” é um meme que nunca falha: basta Dilma Rousseff conquistar algo ou ver algum de seus algozes caindo, como ela própria previu ao ser derrubada, e as redes são inundadas de imagens da ex-presidenta sorrindo. A repetição do meme acompanha uma trajetória que, ao longo de dez anos, não se interrompeu com o impeachment.

Após ser afastada definitivamente da Presidência em agosto de 2016, Dilma passou a atuar no exterior denunciando o processo que a retirou do cargo.

Entre 2016 e 2019, participou de debates em países como França, Espanha e Argentina, com passagens por instituições como a Universidade de Salamanca e o Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), onde tratou de democracia e instabilidade institucional.

Em 2018, voltou ao centro da disputa política ao se candidatar ao Senado por Minas Gerais. Obteve 15.175.846 votos, ficando em quarto lugar na disputa pelas duas vagas.

O reposicionamento internacional ganhou novo peso em março de 2023, quando foi indicada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para presidir o Novo Banco de Desenvolvimento. A posse ocorreu em abril daquele ano, em Xangai, sede da instituição criada por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Ao anunciar a indicação, Lula afirmou que Dilma “tem capacidade gerencial” e destacou sua trajetória de resistência política. À frente do banco, Dilma passou a participar das reuniões anuais da instituição e de agendas multilaterais vinculadas ao BRICS.

No plano interno, o reconhecimento também veio, ainda que tardio. Em 2025, o Estado brasileiro formalizou o pedido de desculpas pelas violações sofridas por Dilma durante a ditadura, ao reconhecê-la como anistiada política. O gesto teve peso simbólico: o mesmo Estado que a derrubou sem crime foi obrigado a reconhecer a violência que marcou sua trajetória.

Cargos, títulos e presença institucional

Antes da nomeação ao banco dos BRICS, Dilma manteve atuação no Brasil. Entre 2021 e 2023, presidiu o conselho da Fundação Perseu Abramo, ligada ao Partido dos Trabalhadores, participando de debates sobre desenvolvimento, democracia e formulação programática.

No campo acadêmico, recebeu títulos honoris causa ao longo da década. Em 2018, foi agraciada com o título de doutora honoris causa pela Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina. Também participou de atividades acadêmicas na Universidade Complutense de Madri e na Universidade de Buenos Aires, em eventos e conferências.

Após assumir o comando do banco dos BRICS, Dilma passou a representar a instituição em encontros internacionais. O banco, criado em 2014, já aprovou mais de US$ 30 bilhões em financiamentos para projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em países membros e parceiros, segundo dados institucionais divulgados pela própria entidade.

O que fica depois da queda

A trajetória posterior ao impeachment frequentemente é lida em paralelo a um passado anterior ao próprio governo. Presa em 1970, durante a ditadura militar, Dilma foi submetida a tortura e interrogatórios por órgãos de repressão do Estado. O registro fotográfico de seu depoimento, diante de militares, se tornou um dos documentos mais conhecidos desse período.

Essa imagem voltou a circular com intensidade na última década, especialmente em momentos de reconhecimento público.

O contraste entre esse episódio e sua presença, décadas depois, em cargos de projeção internacional, passou a ser mobilizado como síntese de sua trajetória política frente a um golpe parlamentar que a derrubou de forma legítima, segundo os critérios parlamentares, mas sempre reconhecido como um “ajuntamento” parlamentar para frear a ex-presidenta, que não cedia ao Congresso.

Numa ironia que beira a confissão, o próprio Eduardo Cunha passou a admitir isso. Em declarações recentes, repercutidas na imprensa, afirmou que o afastamento de Dilma abriu caminho para a eleição de Jair Bolsonaro e para a ascensão da extrema direita. 

Disse também que, se pudesse, teria conduzido o processo ainda mais rapidamente. O cinismo está menos no conteúdo do que na naturalidade: o operador central do impeachment hoje reivindica como feito político aquilo que desorganizou a democracia brasileira.

Foi essa engrenagem que Dilma se recusou a alimentar. Sua queda não nasceu de uma súbita epifania fiscal do Congresso, mas também da recusa em aderir à barganha, em salvar Cunha e em submeter a Presidência ao toma-lá-dá-cá. O impeachment foi, nesse sentido, punição política e recado disciplinador.

Cunha foi cassado meses após conduzir o impeachment. O discurso moralista das “pedaladas” perdeu sustentação. E a narrativa que justificou a queda de Dilma hoje aparece esvaziada até entre seus próprios protagonistas.

Dilma, por sua vez, não recuou nem reescreveu sua posição. Manteve a denúncia do golpe, preservou sua coerência política e atravessou a década sem negociar sua história.